Agulha de fazer rede

Fotografia: José Pessoa, 2000


Agulha de fazer rede
madeira, 44,5x5 cm
Doado por Emílio Vasco
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 1118 Etn.

Instrumento de madeira que termina em forma aguçada, utilizado na confeção da rede de arte xávega. Apresenta recorte interior vazado onde sobressai uma haste pontiaguda, a que os pescadores chamam "língua". A outra parte termina numa reentrância em forma de U, vulgarmente designada por "cu". Tem inscrita a sigla “FCV”, correspondente ao nome do pescador que era seu proprietário (Francisco Codinha Vagos).

Originalmente, as agulhas eram feitas em madeira (castanho, medronho, pinho), pelos próprios pescadores, com recurso a uma navalha; o seu tamanho variava consoante a dimensão da “malha”. Mas, na Nazaré, também se fabricavam agulhas de madeira, tendo sido o último fabricante o taberneiro Júlio Caetano Ramos.

A confeção das redes, em algodão, passava de geração em geração, na maioria das vezes, pelos próprios pescadores. Os “redeiros” consideravam mais difícil remendar a rede, particularmente colocar um espelho, do que tecê-la.

O carácter artesanal do fazer a rede deu progressivamente lugar ao fabrico em série; atualmente, os pescadores continuam a remendar as suas redes, no porto de abrigo, mas com agulhas de plástico ou metal. 





Conheça esta e outras agulhas da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso AQUI.

Júlio Pomar, "Mulheres na Lota"



Júlio Pomar (n.1926 -)
"Mulheres na Lota", 1952
Linogravura, 31x39,5 cm
Adquirido a Emílio Ferreira Mil-Homens
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 5 Grav.


Representação de uma cena de trabalho na Nazaré, quando a lota se realizava ainda no areal da praia. Duas mulheres, envoltas nas suas capas negras, esperavam o leilão do peixe, apoiadas sobre traves de madeira. Outras duas, com os seus "cachenés" (lenços) e capas, aguardam em segundo plano, de pé.

Nos anos 1950, Júlio Pomar, à semelhança de outros artistas, sentiu-se atraído pela Nazaré, pela intensidade e expressividade das suas gentes e de um trabalho piscatório artesanal, desenvolvido sobretudo à custa da força humana e escolhendo como palco diário a praia e as ruas da vila. Realizou, então, vários trabalhos a gravura, onde sobressaem os traços negros e vincados das figuras.

O Museu Dr. Joaquim Manso possui esta linogravura, adquirida através de Jorge de Almeida Monteiro, artista natural do Bombarral, próximo de Júlio Pomar, e um dos primeiros organizadores do Museu da Nazaré.

Abílio, "Barcos típicos da Nazaré"



Abílio de Mattos e Silva (1908-1985)
Barcos típicos da Nazaré, 1933
Óleo sobre tela, 50x70 cm
Legado de Abílio de Mattos e Silva e de Maria José Salavisa de Mattos e Silva (autor e esposa), 1986
MDJM inv. 159 Pint.


As formas e cores das embarcações “pintavam” a praia da Nazaré e atraíam o olhar de muitos artistas que por aqui passaram ou residiram.

Em abril, estabelecendo uma ligação com a nossa exposição temporária “Entrar ao Mar. Miniaturas de embarcações do Museu Dr. Joaquim Manso”, patente no Centro Cultural da Nazaré, destacamos a pintura de Abílio, “Barcos típicos da Nazaré” (1933), onde o autor distribui várias embarcações no areal, tratando-as em manchas cromáticas, mediando o casario do fundo e o grupo de pescadores e peixeiras, em primeiro plano.

Esta pintura insere-se na temática nazarena da obra do pintor Abílio de Mattos e Silva, correspondente ao período em que residiu nesta vila. Nascido no Sardoal e iniciando curso de Direito em Lisboa, acaba por optar pela função pública. Fixa-se na Nazaré em 1931, aqui permanecendo até 1936.

Datam deste período as suas obras mais antigas; definem uma fase em que a sua pintura começa a manifestar-se mais assiduamente, ao que não será estranho o estimulante convívio com pintores portugueses e estrangeiros que com ele partilhavam a forte sedução ambiental da vila.

Nazaré terá sido o princípio, Óbidos a continuação, desta vila medieval também reunindo notável conjunto pictórico.

Em Lisboa, onde passa a residir em 1936, participa em exposições coletivas e colabora em várias revistas. Com a peça "Tá-Mar", de Alfredo Cortez, inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro declamado e ligeiro.

Foi um dos principais autores das imagens sobre a Nazaré destinadas a cartazes e panfletos turísticos, um dos mentores do projeto de um Museu da Nazaré (anos 1950) e autor do célebre livro “O trajo da Nazaré” (ed. 1970), de que o Museu Dr. Joaquim Manso possui todas as pinturas e desenhos.


Para + Informação sobre esta pintura e outras obras de Abílio sobre a Nazaré, consulte a base de dados MatrizNet.

Mulher da Nazaré



Mulher da Nazaré
Ass. “Lopes”, s.d. (século XX)
Barro, alt. 32 cm
Oferta do Dr. Augusto da Silva Araújo (peça pertencente ao espólio de Eurico de Castro e Silva), 1975
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 12 Esc.


Em março, mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, destacamos a pequena peça em barro intitulada “Mulher da Nazaré”.

De cabeça erguida e mãos à cintura, postura ainda hoje tão frequente, esta é uma representação que, de alguma forma, sintetiza a determinação e o espírito combatente, tradicionalmente associado à mulher da Nazaré.

Nas ausências do marido, atarefado na prática diária da faina piscatória artesanal ou compelido para as longas campanhas do bacalhau, cabia às mulheres a educação dos filhos e a gestão da casa.

Quer se tratasse da venda do peixe, de alugar um quarto aos turistas ou vender-lhes frutos secos e bonecas em trajes típicos, etc., as atividades paralelas à pesca, realizadas em terras, eram da sua competência, conferindo-lhes uma pressuposta autonomia na gestão da economia doméstica.

A este propósito, citemos a investigadora Escallier (1999)*: “a participação das mulheres nazarenas na economia da pesca foi fundamental durante muito tempo. Essa actuação é expressa numa omnipresença nas actividades ligadas ao mar, mas realizadas em terra, onde o produto da pesca e os seus resultados escapavam ao controlo dos pescadores. Todas as fases da cadeia técnica, do desembarque do produto até ao consumo, passando pela sua transformação e a sua comercialização, eram feitas por mulheres”.

São elas que perpetuam algumas destas atividades, bem como o uso diário da “saia de roda” e muitas das vivências de rua, emprestando-lhes alegria e expressão colorida.

A nossa homenagem a todas estas “mulheres da Nazaré”!

* Christine Escallier, “O Papel das Mulheres da Nazaré na Economia Haliêutica”, Etnográfica, Vol. III (2), 1999, pp. 293-308.

Carnaval - uma família feliz - Cardina




Álvaro Laborinho (1879-1970)
Carnaval - uma família feliz - Cardina, 19 fevereiro 1933
MDJM Inv. 1456 Fot.


Em fevereiro, trazemos a alegria e a folia do Carnaval da Nazaré de outros tempos.

Através da fotografia de Álvaro Laborinho, datada de 1933, recordamos uma “família feliz”, bem “ensaiada” (mascarada)!

Ontem, como hoje, a Nazaré anseia por estes dias de Carnaval; todos, de todas as idades e grupos socais, se unem em torno de grupos, apresentam-se nos bailes de máscaras, criticam nas cegadas, cantam e dançam ao som das “marchas” e andam “ensaiados”.

A festa há muito que já começou, mas depois do “São Brás” só terminará no Santo Entrudo.

Se é nazareno, não há nada a explicar... tudo se sente!
Se não é... deixe-se contagiar pelo Carnaval da Nazaré!



+ Informações sobre o Carnaval da Nazaré em:
Grupo Carnavalesco
Marcha de Carnaval do Salão Mar Alto
Banda Infernal
Grupo dos Moleiros
Festejando o São Brás
Marcha de Carnaval do Salão Mar Alto (1969)
Marchoteca de Carnaval 
Marcha de Santo Amaro (janeiro, 1956) 
Mote de Carnaval 2016 "Seca fatos de oleado"
Dizeres da Nazaré e o Monte de São Brás

+ Fotografias de Álvaro Laborinho sobre a Nazaré em MatrizNet - Museu Dr. Joaquim Manso. 

Gamela ou celha de aparelho



Gamela ou celha de aparelho
madeira e cortiça
39 cm (diâmetro) x 15 cm (altura)
oferta de António Figueira Sales, 1976
MDJM inv. 816 Etn.


A pesca é um fator identitário da Nazaré, concorrendo para a coesão desta comunidade. Pescadores, barcos e artes de pesca fazem parte de um quotidiano de trabalho, quantas vezes de luta e sofrimento.

Entre as artes de pesca artesanal, destaca-se este mês o aparelho destinado à pesca do alto e captura do chamado peixe grosso, tendo como pretexto um dos objetos da coleção do Museu – uma gamela ou celha de aparelho, um recipiente de forma circular, de base mais estreita e rebordo de cortiça pregada à madeira, onde se espetam os anzóis das linhas do aparelho.

Os anzóis eram arrumados em “talas” e transportados dentro da celha. 
 
Esta celha, que apresenta a sigla “AFS” foi doada em 1976 por António Figueira Sales, pescador do alto e proprietário da embarcação com o registo N 1659 L, com o nome “Santo Onofre”.

Cita-se, a este propósito, o escritor Alves Redol numa passagem do seu livro inspirado na Nazaré ("Uma Fenda na Muralha"):
“Os homens iscam o aparelho. Tiram as sardinhas dos gigos, cortam-nas ao meio e cravam-nas nos anzóis. Levam vinte e duas celhas, cada celha duzentos e cinquenta anzóis e tudo há de ficar pronto até chegarem ao Mar que o arrais escolheu; “se o Mar deixar” pensam todos os homens da companha (...)
Os aladores, em ritmo certo puxam as linhas, vai a mão esquerda, vai a mão direita, bem trazida até aos ombros, provocando alguns ferimentos, apesar da utilização de nepas de borracha, para proteção dos dedos.
A linha é rija, o anzol é de aço, a poita está no fundo do Mar e a cabaça pintada de vermelho e branco parece um pássaro irrequieto". 


+ Informação sobre esta celha de aparelho no MatrizNet (clique aqui).

Canhão e balas do Forte S. Miguel Arcanjo



Em dezembro, venha descobrir outro “canhão da Nazaré”!

Proveniente do Forte de S. Miguel Arcanjo que, na ponta extrema do Promontório, ainda se ergue como secular guardião dos mares, o Museu Dr. Joaquim Manso tem em exposição um dos seus primitivos canhões, lembrando as funções militares daquele monumento, hoje tão visitado e fotografado por causa das pujantes ondas da Praia do Norte.



Canhão e respetivas balas
Ferro
Séc. XVII – XVIII
Proveniência provável do Forte de S. Miguel Arcanjo, Nazaré
Oferta de Noémia Garcia Calixto, 1981
MDJM inv. 1 a 8, 26 e 27 Div.

No século XVI, piratas e corsários (argelinos, franceses, holandeses, ingleses e espanhóis) eram uma ameaça constante à comunidade e às atividades desempenhadas na Praia da Nazaré pelos pescadores da Pederneira e do Sítio, assim como ao transporte de madeira do Pinhal do Rei, a que o inimigo poderia deitar fogo.

Segundo Saavedra Machado (2009: 9), o Forte de S. Miguel Arcanjo, ainda hoje emblemático na paisagem monumental da Nazaré, nasceu numa altura de decadência do Porto da Pederneira, primeiro núcleo populacional deste concelho, e de desguarnecimento de fortalezas da costa atlântica, durante o curto reinado do jovem Rei D. Sebastião.
Coube de facto a este monarca a iniciativa de construir um forte para proteção da costa e a escolha do local onde seria implantado, na ponta lançada ao mar do rochoso promontório do Sítio, a maior elevação da costa a dominar as operações a Norte, Sul e Oeste surgidas do Oceano Atlântico.

Em 1593, Frei Vicensio Casal expõe a planta do Forte, a primeira conhecida e considerado o projeto de edificação mais antigo, mas todavia inacabado.
Com a Restauração da Independência a 1 de dezembro de 1640, o então Capitão da Pederneira, Manuel Gomes Pereira, informou por carta o novo rei sobre o estado de situação do forte, que viria a ser concluído nesta nova fase, conforme inscrição na fachada, onde se encontra a imagem de São Miguel Arcanjo, em pedra calcária, e a legenda "El Rey Dom Joam o 4º – 1644".

Com Bernardim Ribeiro como Capitão da Pederneira, em 1595, e posteriormente, em 1639, com Gomes Pereira, o Forte de S. Miguel foi reforçado com armamento e guarnição militar. Nesta época, existiriam 6 peças de ferro coado.
O canhão que agora se evidencia terá desempenhado papel importante na defesa da linha de costa da Nazaré, sobretudo até ao século XIX.
Segundo Saavedra Machado (Machado, 2009: 45), esta “peça de artilharia foi, no século XX, desenterrada na quinta de S. Gião e, depois de estar muitos anos em coleção particular, pertence hoje ao Museu da Nazaré, bem como algumas balas rasas”.


Para além da visita ao Museu Dr. Joaquim Manso e ao Forte de S. Miguel, sugerimos a consulta do livro de João L. Saavedra Machado, “O Forte de S. Miguel Arcanjo. Monumento histórico-militar do séc. XVII”, 2009. 



Álvaro Laborinho, "A Pedra do Guilhim e o Forte", 1913. MDJM inv. 1079 Fot.