Abílio, "Barcos típicos da Nazaré"



Abílio de Mattos e Silva (1908-1985)
Barcos típicos da Nazaré, 1933
Óleo sobre tela, 50x70 cm
Legado de Abílio de Mattos e Silva e de Maria José Salavisa de Mattos e Silva (autor e esposa), 1986
MDJM inv. 159 Pint.


As formas e cores das embarcações “pintavam” a praia da Nazaré e atraíam o olhar de muitos artistas que por aqui passaram ou residiram.

Em abril, estabelecendo uma ligação com a nossa exposição temporária “Entrar ao Mar. Miniaturas de embarcações do Museu Dr. Joaquim Manso”, patente no Centro Cultural da Nazaré, destacamos a pintura de Abílio, “Barcos típicos da Nazaré” (1933), onde o autor distribui várias embarcações no areal, tratando-as em manchas cromáticas, mediando o casario do fundo e o grupo de pescadores e peixeiras, em primeiro plano.

Esta pintura insere-se na temática nazarena da obra do pintor Abílio de Mattos e Silva, correspondente ao período em que residiu nesta vila. Nascido no Sardoal e iniciando curso de Direito em Lisboa, acaba por optar pela função pública. Fixa-se na Nazaré em 1931, aqui permanecendo até 1936.

Datam deste período as suas obras mais antigas; definem uma fase em que a sua pintura começa a manifestar-se mais assiduamente, ao que não será estranho o estimulante convívio com pintores portugueses e estrangeiros que com ele partilhavam a forte sedução ambiental da vila.

Nazaré terá sido o princípio, Óbidos a continuação, desta vila medieval também reunindo notável conjunto pictórico.

Em Lisboa, onde passa a residir em 1936, participa em exposições coletivas e colabora em várias revistas. Com a peça "Tá-Mar", de Alfredo Cortez, inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro declamado e ligeiro.

Foi um dos principais autores das imagens sobre a Nazaré destinadas a cartazes e panfletos turísticos, um dos mentores do projeto de um Museu da Nazaré (anos 1950) e autor do célebre livro “O trajo da Nazaré” (ed. 1970), de que o Museu Dr. Joaquim Manso possui todas as pinturas e desenhos.


Para + Informação sobre esta pintura e outras obras de Abílio sobre a Nazaré, consulte a base de dados MatrizNet.

Mulher da Nazaré



Mulher da Nazaré
Ass. “Lopes”, s.d. (século XX)
Barro, alt. 32 cm
Oferta do Dr. Augusto da Silva Araújo (peça pertencente ao espólio de Eurico de Castro e Silva), 1975
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 12 Esc.


Em março, mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, destacamos a pequena peça em barro intitulada “Mulher da Nazaré”.

De cabeça erguida e mãos à cintura, postura ainda hoje tão frequente, esta é uma representação que, de alguma forma, sintetiza a determinação e o espírito combatente, tradicionalmente associado à mulher da Nazaré.

Nas ausências do marido, atarefado na prática diária da faina piscatória artesanal ou compelido para as longas campanhas do bacalhau, cabia às mulheres a educação dos filhos e a gestão da casa.

Quer se tratasse da venda do peixe, de alugar um quarto aos turistas ou vender-lhes frutos secos e bonecas em trajes típicos, etc., as atividades paralelas à pesca, realizadas em terras, eram da sua competência, conferindo-lhes uma pressuposta autonomia na gestão da economia doméstica.

A este propósito, citemos a investigadora Escallier (1999)*: “a participação das mulheres nazarenas na economia da pesca foi fundamental durante muito tempo. Essa actuação é expressa numa omnipresença nas actividades ligadas ao mar, mas realizadas em terra, onde o produto da pesca e os seus resultados escapavam ao controlo dos pescadores. Todas as fases da cadeia técnica, do desembarque do produto até ao consumo, passando pela sua transformação e a sua comercialização, eram feitas por mulheres”.

São elas que perpetuam algumas destas atividades, bem como o uso diário da “saia de roda” e muitas das vivências de rua, emprestando-lhes alegria e expressão colorida.

A nossa homenagem a todas estas “mulheres da Nazaré”!

* Christine Escallier, “O Papel das Mulheres da Nazaré na Economia Haliêutica”, Etnográfica, Vol. III (2), 1999, pp. 293-308.

Carnaval - uma família feliz - Cardina




Álvaro Laborinho (1879-1970)
Carnaval - uma família feliz - Cardina, 19 fevereiro 1933
MDJM Inv. 1456 Fot.


Em fevereiro, trazemos a alegria e a folia do Carnaval da Nazaré de outros tempos.

Através da fotografia de Álvaro Laborinho, datada de 1933, recordamos uma “família feliz”, bem “ensaiada” (mascarada)!

Ontem, como hoje, a Nazaré anseia por estes dias de Carnaval; todos, de todas as idades e grupos socais, se unem em torno de grupos, apresentam-se nos bailes de máscaras, criticam nas cegadas, cantam e dançam ao som das “marchas” e andam “ensaiados”.

A festa há muito que já começou, mas depois do “São Brás” só terminará no Santo Entrudo.

Se é nazareno, não há nada a explicar... tudo se sente!
Se não é... deixe-se contagiar pelo Carnaval da Nazaré!



+ Informações sobre o Carnaval da Nazaré em:
Grupo Carnavalesco
Marcha de Carnaval do Salão Mar Alto
Banda Infernal
Grupo dos Moleiros
Festejando o São Brás
Marcha de Carnaval do Salão Mar Alto (1969)
Marchoteca de Carnaval 
Marcha de Santo Amaro (janeiro, 1956) 
Mote de Carnaval 2016 "Seca fatos de oleado"
Dizeres da Nazaré e o Monte de São Brás

+ Fotografias de Álvaro Laborinho sobre a Nazaré em MatrizNet - Museu Dr. Joaquim Manso. 

Gamela ou celha de aparelho



Gamela ou celha de aparelho
madeira e cortiça
39 cm (diâmetro) x 15 cm (altura)
oferta de António Figueira Sales, 1976
MDJM inv. 816 Etn.


A pesca é um fator identitário da Nazaré, concorrendo para a coesão desta comunidade. Pescadores, barcos e artes de pesca fazem parte de um quotidiano de trabalho, quantas vezes de luta e sofrimento.

Entre as artes de pesca artesanal, destaca-se este mês o aparelho destinado à pesca do alto e captura do chamado peixe grosso, tendo como pretexto um dos objetos da coleção do Museu – uma gamela ou celha de aparelho, um recipiente de forma circular, de base mais estreita e rebordo de cortiça pregada à madeira, onde se espetam os anzóis das linhas do aparelho.

Os anzóis eram arrumados em “talas” e transportados dentro da celha. 
 
Esta celha, que apresenta a sigla “AFS” foi doada em 1976 por António Figueira Sales, pescador do alto e proprietário da embarcação com o registo N 1659 L, com o nome “Santo Onofre”.

Cita-se, a este propósito, o escritor Alves Redol numa passagem do seu livro inspirado na Nazaré ("Uma Fenda na Muralha"):
“Os homens iscam o aparelho. Tiram as sardinhas dos gigos, cortam-nas ao meio e cravam-nas nos anzóis. Levam vinte e duas celhas, cada celha duzentos e cinquenta anzóis e tudo há de ficar pronto até chegarem ao Mar que o arrais escolheu; “se o Mar deixar” pensam todos os homens da companha (...)
Os aladores, em ritmo certo puxam as linhas, vai a mão esquerda, vai a mão direita, bem trazida até aos ombros, provocando alguns ferimentos, apesar da utilização de nepas de borracha, para proteção dos dedos.
A linha é rija, o anzol é de aço, a poita está no fundo do Mar e a cabaça pintada de vermelho e branco parece um pássaro irrequieto". 


+ Informação sobre esta celha de aparelho no MatrizNet (clique aqui).

Canhão e balas do Forte S. Miguel Arcanjo



Em dezembro, venha descobrir outro “canhão da Nazaré”!

Proveniente do Forte de S. Miguel Arcanjo que, na ponta extrema do Promontório, ainda se ergue como secular guardião dos mares, o Museu Dr. Joaquim Manso tem em exposição um dos seus primitivos canhões, lembrando as funções militares daquele monumento, hoje tão visitado e fotografado por causa das pujantes ondas da Praia do Norte.



Canhão e respetivas balas
Ferro
Séc. XVII – XVIII
Proveniência provável do Forte de S. Miguel Arcanjo, Nazaré
Oferta de Noémia Garcia Calixto, 1981
MDJM inv. 1 a 8, 26 e 27 Div.

No século XVI, piratas e corsários (argelinos, franceses, holandeses, ingleses e espanhóis) eram uma ameaça constante à comunidade e às atividades desempenhadas na Praia da Nazaré pelos pescadores da Pederneira e do Sítio, assim como ao transporte de madeira do Pinhal do Rei, a que o inimigo poderia deitar fogo.

Segundo Saavedra Machado (2009: 9), o Forte de S. Miguel Arcanjo, ainda hoje emblemático na paisagem monumental da Nazaré, nasceu numa altura de decadência do Porto da Pederneira, primeiro núcleo populacional deste concelho, e de desguarnecimento de fortalezas da costa atlântica, durante o curto reinado do jovem Rei D. Sebastião.
Coube de facto a este monarca a iniciativa de construir um forte para proteção da costa e a escolha do local onde seria implantado, na ponta lançada ao mar do rochoso promontório do Sítio, a maior elevação da costa a dominar as operações a Norte, Sul e Oeste surgidas do Oceano Atlântico.

Em 1593, Frei Vicensio Casal expõe a planta do Forte, a primeira conhecida e considerado o projeto de edificação mais antigo, mas todavia inacabado.
Com a Restauração da Independência a 1 de dezembro de 1640, o então Capitão da Pederneira, Manuel Gomes Pereira, informou por carta o novo rei sobre o estado de situação do forte, que viria a ser concluído nesta nova fase, conforme inscrição na fachada, onde se encontra a imagem de São Miguel Arcanjo, em pedra calcária, e a legenda "El Rey Dom Joam o 4º – 1644".

Com Bernardim Ribeiro como Capitão da Pederneira, em 1595, e posteriormente, em 1639, com Gomes Pereira, o Forte de S. Miguel foi reforçado com armamento e guarnição militar. Nesta época, existiriam 6 peças de ferro coado.
O canhão que agora se evidencia terá desempenhado papel importante na defesa da linha de costa da Nazaré, sobretudo até ao século XIX.
Segundo Saavedra Machado (Machado, 2009: 45), esta “peça de artilharia foi, no século XX, desenterrada na quinta de S. Gião e, depois de estar muitos anos em coleção particular, pertence hoje ao Museu da Nazaré, bem como algumas balas rasas”.


Para além da visita ao Museu Dr. Joaquim Manso e ao Forte de S. Miguel, sugerimos a consulta do livro de João L. Saavedra Machado, “O Forte de S. Miguel Arcanjo. Monumento histórico-militar do séc. XVII”, 2009. 



Álvaro Laborinho, "A Pedra do Guilhim e o Forte", 1913. MDJM inv. 1079 Fot.


Busto de Joaquim da Rita


Fotografia: José Pessoa (DGPC/ADF)


António Paiva
"Busto de Joaquim da Rita", 1981
bronze, alt. 75 cm
Comprado por encomenda ao autor, 1981
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 30 Esc.

Busto em bronze representando Joaquim Bernardo de Sousa Lobo, vulgarmente conhecido como "Joaquim da Rita". De barba comprida e cachimbo, enverga chapéu e farda de cabo-de-mar, ostentando no peito as várias condecorações com que foi agraciado.

Mais conhecido por "Joaquim da Rita", Joaquim Bernardo de Sousa Lobo nasceu em Lisboa, em 15 de fevereiro de 1854, e faleceu na Nazaré com 85 anos, em 21 de janeiro de 1939.

Desde cedo, manifestou grande inclinação pela vida do mar, que iniciou apenas com 14 anos, realizando a sua primeira viagem na costa portuguesa. Dois anos mais tarde, embora como moço no patacho "Fausto", rumou ao Brasil, o que fez durante 15 anos seguidos, ocupando todos os cargos de bordo, desde moço a mestre. Com esta função, num barco à vela, naufragou na costa do Rio de Janeiro, tendo sido salvo por outra embarcação.


Fixa-se, então, definitivamente na Nazaré; tornou-se pescador, participando em duas campanhas de pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova.

Dotado de forte personalidade, dizia sentir-se bem nas tormentas. Quando as havia era o primeiro a aparecer, demonstrando sempre grande serenidade e coragem. Deste modo, cedo granjeou grande admiração entre a classe piscatória da região, pois, de uma forma ou outra, lhe deviam ou a própria vida ou a de qualquer familiar.

Em 28 de Janeiro de 1893, foi nomeado cabo de mar da Capitania do Porto da Nazaré, cargo que manteve até 1914, chegando a ocupar simultaneamente as funções de regedor e zelador da Câmara.

Muitos foram os naufrágios em que tomou parte e, em vários, pondo em risco a própria vida, nomeadamente nos do barco das "Sabinas", na barca norueguesa "Undine" e noutras embarcações de pesca, em 1898, 1901 e 1902.

Mas foi, sobretudo, como 1º "patrão" da Barca Salva-Vidas Nossa Senhora dos Aflitos, que hoje também faz parte do acervo do Museu da Nazaré (MDJM inv. 943 Etn.), que praticou salvamentos e atos de verdadeiro heroísmo que lhe mereceram, por parte do Instituto de Socorros a Náufragos, várias condecorações (2 medalhas de ouro, 8 de prata, 5 de cobre, 1 diploma de honra). Em 28 de janeiro de 1907, na Assembleia Geral daquela instituição, a Rainha D. Amélia colocou-lhe o colar de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada.

 
O seu nome nome foi dado a uma rua da Nazaré.


CONSULTE informação sobre esta peça na base de dados MATRIZNET.

Camisola de bacalhoeiro




Camisola
Usada na pesca do bacalhau
Lã grossa
Doada por Isaura da Justina Chicharro Milhazes, 1994
MDJM inv. 1657 Etn.


Considerando que, na Nazaré, o mês de outubro estava associado ao regresso dos bacalhoeiros e às festividades locais que celebravam este facto (Procissão e Baile de bacalhoeiros, a 5 de outubro), o Museu Dr. Joaquim Manso destaca esta camisola de lã grossa, prestando uma homenagem a todos os pescadores da Nazaré que, durante anos, "andaram ao bacalhau". 

Uma simples peça de vestuário, doada por Isaura Milhazes, filha do pescador Joaquim Bem Chicharro (natural da Nazaré) e casada com o pescador Manuel Ribeiro Milhazes (natural da Póvoa de Varzim), que agasalhava durante as longas campanhas da pesca do bacalhau, nas temperaturas gélidas da Terra Nova.
Para além desta camisola, o Museu Dr. Joaquim Manso possui no seu acervo número considerável de peças (vestuário, orientação, "artes", devoção, ...) que certificam a importância da pesca do bacalhau para muitos dos jovens pescadores da Nazaré, em meados do século XX.