Painel de azulejos
Painel de azulejos
Fábrica Battistini de Maria de Portugal, s.d. (final anos 1930-40?)
Em agosto, destacamos um elemento decorativo integrante do edifício do Museu Dr. Joaquim Manso e que relembra a sua função inicial como moradia particular, ao mesmo tempo que remete para uma tradição local de colocar na fachada registos alusivos ao Milagre de Nossa Senhora da Nazaré, do Senhor dos Passos, outras evocações religiosas e marítimas.
No exterior do edifício do Museu Dr. Joaquim Manso, no terraço adornado de colunas e pérgola, à esquerda da primitiva porta de acesso à moradia, está patente um painel de azulejo, azul e branco com apontamentos a amarelo, verde e castanho na decoração floral.
Envolta por moldura de concheados, recuperando a tradição azulejar portuguesa do século XVIII, surge uma representação de Nossa Senhora da Nazaré, sobre paisagem onde se avista o Promontório e o mar com diversas embarcações.
Em cartela central de fundo amarelo, reproduzem-se os seguintes versos assinados por Maria de Portugal:
“Senhora da Nazareth
Ajude o mar a ter fé,
Ensine a onda a resar:
Olhe, as mães dos pescadores
Já sofreram tantas dores,
Precisam de descançar”
No lado inferior direito, lê-se “Fca Battistini de Maria de Portugal”.
“Maria de Portugal” é o pseudónimo de Albertina dos Santos Leitão (1884-1971), pintora e ceramista discípula de Leopoldo Battistini (1865-1936), artista de origem italiana, grande impulsionador da fábrica de Cerâmica Constância, em Lisboa (Lapa). Após a sua morte, Maria de Portugal tornou-se sua proprietária e assumiu a direção artística, passando a fábrica a ostentar o nome de “Fábrica Battistini de Maria de Portugal”.
O Museu Dr. Joaquim Manso está instalado na antiga casa de veraneio do Dr. Joaquim Manso (1878-1956), escritor e jornalista, fundador do “Diário de Lisboa”. Construída no Sítio da Nazaré, na 1ª metade do séc. XX, em 1968 moradia é oferecida ao Estado para aqui instalar o Museu da Nazaré, pelo benemérito nazareno e empresário da construção civil Amadeu Gaudêncio (1889-1980).
Rapa "Praia do Norte"
Rapa
"Praia do Norte"
(miniatura)
Augusto
Sabino, s.d.
MDJM
inv. 948 Etn.
Durante
este mês, no Museu Dr. Joaquim Manso, revive-se a memória da pesca
artesanal da Nazaré, através do destaque dado a uma Rapa.
Este
tipo de embarcação resulta da evolução e adaptação da
traineira, praticando, à semelhança desta, a pesca com rede de
cerco.
Regista-se
a utilização de lancha auxiliar e de outro equipamento tecnológico
mais moderno, nomeadamente casa de motor, rádio, radiogoniómetro,
luzes avisadoras, entre outros.
Esta
miniatura corresponde ao original na construção, decoração,
denominação e matrícula.
Repare-se
na sua denomição “Praia do Norte”, hoje tão em voga pela
atração dos surfistas pelas grandes ondas, durante o inverno.
"Tacoa", de F. Lino
Fernando Lino
Tacoa, s.d.
Técnica mista sobre papel
Aquisição pelo MDJM, 1984
MDJM inv. 117 des.
Na Nazaré, todos se lembram da “Tacoa”.
Rosária Meca Tacoa, filha do marítimo José Veríssimo Tacoa e da peixeira Maria da Soledade Meca, nasceu em 10 de dezembro de 1929, na Nazaré.
Figura bastante conhecida nesta vila, a Tacoa distinguia-se, sobretudo, pelo seu traje regional, modesto, pardacento e já muito gasto. Um velho chapéu sobre a capa reforçava um tipicismo próprio, que os turistas não perdiam a oportunidade de fotografar e filmar.
Pelo seu linguarejar brejeiro, onde não faltavam as pragas, era considerada como alguém que “não tem o juízo todo”, ideia que ela vivamente rejeitava, afirmando: “eu não sofro da cabeça! Dão-me é ataques epiléctricos no coração”!
Com oito anos, trabalhava já numa padaria e, mais tarde, até 1957/58, numa fábrica de conservas de peixe.
Em 1966, casou com o pescador José Pai João, de quem enviuvou em 1982.
Uma das facetas, talvez a mais desconhecida da Tacoa, era a sua facilidade de versejar.
Em junho, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca esta "figura" da Nazaré, através de um trabalho popular de Fernando Lino, que chegou a ser desenhador do Museu.
Esta é também uma oportunidade de a relembrar através da criatividade das crianças do 3º ano do Agrupamento de Escolas da Nazaré, que virão ao Museu, no dia 6 de junho, expor os seus trabalhos do projeto "Salpicos", baseados em representações da Tacoa.
Desenho de Stuart Carvalhais

Stuart Carvalhais (1887–1961)
Sem título, s.d
Tinta-da-China
MDJM inv. 100 Des.
Trabalho a tinta-da-China, onde um bando de perús é encaminhado por um homem com uma vara, num dirigismo satirizado.
A arte da sátira gráfica desenvolve-se na Europa a partir dos finais do século XVIII. Em Portugal, regista-se um incremento deste tipo de crítica com o liberalismo, no século XIX.
Neste mundo de irreverência e humorismo, onde há uma convivência entre o riso, a sátira e a caricatura, destaca-se, entre outros, Stuart Carvalhais, autor de figuras e tiras de banda desenhada como “Quim e Manecas”, a série mais longa com cerca de 500 episódios (entre 1915 e 1953), cujo conteúdo é enriquecido através de uma ponte com a realidade social e política do país.
Stuart Carvalhais, com Christiano Cruz, Almada Negreiros e Jorge Barradas, entre outros, fundaram também a sociedade de humoristas “vid'airada” e o jornal “Sátira” (1911).
José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, mais conhecido por Stuart Carvalhais, filho de pai português e mãe inglesa, nasceu na zona do Douro.
Artista multifacetado, distinguiu-se como pintor, desenhador, ilustrador, caricaturista e autor de banda desenhada, dedicando-se também à fotografia, cenografia e cinema.
Viveu a sua primeira experiência nos jornais como repórter fotográfico. É n' “O Século” que publica os primeiros desenhos, em 1906, iniciando o trabalho de banda desenhada no ano seguinte.
Vivendo em Paris em 1912 – 1913, integra também neste período a I e a II Exposição dos Humoristas Portugueses.
Em 1914, colaborou no jornal satírico “Papagaio Real”, então sob a direção de Almada Negreiros.
Casado com a varina Fausta Moreira, de quem teve um filho, Raul Carvalhais.
Joaquim Manso (1878-1956), patrono deste Museu instalado na sua moradia de veraneio na Nazaré, era próximo destes artistas portugueses, sendo as páginas do jornal que dirigia - “Diário de Lisboa” - o suporte para divulgação de muitas das suas iniciativas e ideias.
É através da sua coleção, por doação do filho Pedro Manso Lefèvre em 1977, que este trabalho de Stuart de Carvalhais vem integrar o espólio do Museu da Nazaré, a par de outros trabalhos, deste e de outros artistas desta geração.
Consulte este desenho no MatrizNet.
Em destaque em abril
Roberto Araújo (1909 – 1969)
Sem título, s.d.
Tinta da china sobre papel
Oferta de Pedro Manso Lefévre, 1977
MDJM inv. 99 Des.
No mês em que se comemoram os 40 anos da “Revolução dos Cravos”, ocorrida a 25 de abril de 1974, o Museu Dr. Joaquim Manso seleciona do seu espólio, como “Objeto do mês de abril”, um emblemático desenho de Roberto Araújo.
Pintor e ilustrador, aluno da Escola de Belas Artes de Lisboa e de cenografia no Conservatório Nacional de Teatro, Ricardo Araújo foi autor de cenários e decorações para várias companhias de teatro e filmes, como “O Pai Tirano” e o “Pátio das Cantigas”, depois de se ter iniciado com a peça “Divórcio”, de Ilda Stichini, em 1933.
Em 1934, ganha o 1º Prémio de Ilustração num concurso da Junta de Educação Nacional e, como bolseiro, visita Espanha, Bélgica e Alemanha. Foi professor na Escola de Artes Decorativas António Arroio.
Casa-se em 1931, pelo registo civil, com a filha de César Porto, Manuela Porto (1912-1950), colaboradora do jornal “Diário de Lisboa” (fundado por Joaquim Manso).
Herdeiro dos pais, Araújo Pereira e Emília de Araújo Pereira, da crítica oposição à situação política e cultural vigente, teve uma postura ativa contra o regime de Salazar, sendo muitas das suas obras protestos contra as medidas tomadas pela ditadura.
Ainda que se desconheça a justificação inicial da sua produção, destinando-se porventura a um fim ilustrativo ou cenográfico, o desenho agora em destaque aproxima-se deste intento de protesto pela conjuntura política em que Portugal se encontrava, evocando um grito de revolta e tentativa de libertação, que nos remete ainda para a célebre pintura de Eugène Delacroix, “A Liberdade Guiando o Povo” (1930), inspiradora da consequente iconografia republicana de vários países, incluindo da portuguesa.
Desenvolvido em composição triangular, constituída por quatro elementos femininos, uma figura central em segundo plano está de pé, usando barrete republicano e direcionando a cabeça para o lado esquerdo. À sua frente, apoia-se outra figura feminina, com um dos seios descobertos, de braços erguidos ao alto, com uma algema em cada punho. Em plano inferior e ladeando as figuras centrais, estão duas figuras sentadas, que olham para cima. A da esquerda ostenta uma espada com ambas as mãos.
Do círculo de convívio de Roberto Araújo faziam parte Almada Negreiros, Thomaz deMello, Abel Manta, Sena da Silva, entre outros. Recordemos que a esposa foi colaboradora do “Diário de Lisboa” e seriam também próximos do jornalista Joaquim Manso. É através do filho deste, Pedro Manso Lefèvre, que este trabalho é doado em 1977 a este Museu, de que o escritor é patrono, por ter sido na sua residência de veraneio que se viria a instalar o tão ansiado Museu da Nazaré.
Tragédia Marítima
Henrique Moreira (1889 - 1979)
Tragédia marítima, 1941
Bronze, alt. 35,5 cm
MDJM inv. 4 Esc.
Grupo escultórico, de grande carga emotiva, evocando a “tragédia marítima” de um naufrágio.
Sobre um homem desfalecido na praia, gesticulam duas mulheres envoltas em capas largas e lenços na cabeça, uma de joelhos com o braço esquerdo erguido sobre a cabeça virada ao alto, como que gritando, e a outra debruçada sobre o corpo, abraçando-o, como que o chamasse à vida.
Esta composição, repleta de dramatismo, revela o forte sentimento de perda, comum a todas as mulheres desta terra de pescadores – a Nazaré.
Mais informação em MatrizNet.
Festejando o São Brás
Festejando o São Brás, 1979
MDJM inv. 43-2-4 Fot.
“O Carnaval é um folguedo. Pois folgamos todos. E quando chega a festa do S. Brás, em três de Fevereiro logo a brincadeira começa. Qualquer pretexto serve para as pessoas se refugiarem no esquecimento”.
Alves Redol
Num dos festejos populares mais genuínos, no dia 3 de
Fevereiro, as gentes da Nazaré sobem ao Monte de São Bartolomeu ou Monte de São
Brás, lugar místico associado à Lenda de Nossa Senhora da Nazaré e onde se
situa a pequena ermida caiada de branco, tradicionalmente com três imagens
sobre singelo altar: Nossa Senhora das Candeias (2 de Fevereiro), São
Bartolomeu e São Brás (3 de Fevereiro), este último orago da capela.
Dizem que vão pagar as suas promessas. Antigamente, as mais
evidentes eram as das raparigas solteiras, que levavam uma telha para a capela,
para serem bafejadas com a sorte de arranjar um namorado e assim casar.
Mas, sobretudo, para os nazarenos, esta é a festa que marca
o início oficial da folia carnavalesca, num crescendo de animação até à semana
do Entrudo. Crianças e adultos, todos envergam os seus trajes tradicionais ou
vão mascarados (“ensaiados”) com coisas que vão buscar às arcas, num “traje
trapalhão”.
Antes a pé, hoje mais de carro, é de ver os “romeiros” com os
cestos de comida para fazerem os seus piqueniques, no sopé do monte. Do
“farnel” constam carnes de porco para grelhar, chouriço, morcela de arroz e toucinho.
Os antigos costumavam levar sardinhas salgadas, que comiam com broa, tradição
mantida por alguns. Assim como não pode deixar de faltar o garrafão de vinho,
para animar…
Assim que se chega ao pinhal, há que procurar lenha para se
fazer a fogueira e preparar a merenda. Por fim, depois de “bem comidos e bem
regados”, salta-se a fogueira, juntam-se vários grupos e começa o bailarico com
instrumentos improvisados, hoje substituídos por banda musical contratada.
É aqui que, mais recentemente, também se faz a primeira
apresentação dos Reis do Carnaval.
Antes da partida, na feira que sempre se organiza, os
foliões compram pinhões e enfiadas de maçã seca, que são curadas no fumeiro e
que as raparigas vaidosamente ostentavam como colares ao pescoço.
O regresso era feito em grupo, a cantar de alegria. A festa era
continuada nas tabernas. Hoje, fica-se no pinhal ou na rua até ao limite do
cansaço.
Agora todos têm que se preparar… porque o Carnaval está à porta!
Guilherme Filipe, "Mulher da Nazaré"
Guilherme Filipe
Mulher da Nazaré, 1940
Woman of Nazaré
Óleo sobre tela | Oil on canvas
MDJM inv. 142 Pint.
Guilherme Filipe (1897, Pampilhosa da Serra – 1971) foi considerado por Tomás Ribas o “pintor das paisagens e gentes da Nazaré”.
Desde novo, manifestou a sua vocação para a pintura. Aluno da Escola de Belas-Artes de Lisboa, frequenta também cursos livres na Sociedade Nacional de Belas-Artes e os ateliers de Malhoa e Conceição Silva.
Após uma permanência de seis anos em Madrid, onde participa em várias exposições e tertúlias com personalidades importantes na área da cultura, regressa a Portugal e instala-se em Coimbra. O poeta Eugénio de Castro proporciona-lhe um atelier na Faculdade de Letras e, em 1923, realiza a primeira exposição individual, mudando-se mais tarde para Lisboa.
A sua relação com a Nazaré intensifica-se em meados dos anos 1930, aqui colhendo os motivos das suas pinturas relacionadas com a labuta diária desta vila piscatória. Relaciona-se com outros artistas e intelectuais que frequentavam a Nazaré, integrando a comissão organizadora da primeira Festa do Mar (Setembro 1939), na qual colaboraram Afonso Lopes Vieira, Joaquim Manso, Hipólito Raposo e Almada Negreiros.
Sonhando com “uma galeria de arte, onde pintores vindos de fora, de toda a parte, encontrariam abrigo e um local amplo e adequado às exposições das suas obras” (Borges Garcia, O Museu da Nazaré, 1976), Guilherme Filipe foi um elemento ativo na organização de um Museu da Nazaré, integrando o seu primeiro “Grupo de Amigos” (1969).
São várias as obras deste autor que integram a coleção do Museu Dr. Joaquim Manso: dois retratos do seu patrono, de quem também foi amigo, e outras relacionadas com a “Vida da Nazaré”.
É exemplo este óleo “Mulher da Nazaré” (1940), representando Maria Santana Vigia Chiquito (c.1923-c.1951), filha de Ana Vigia e José Chiquito, uma jovem costureira nazarena por quem o pintor se apaixonou e teve uma relação durante sete anos, enquanto vivia entre a Nazaré e Lisboa.
Após o término do relacionamento, Maria Santana acaba por casar com Jacinto Mafra, com quem tem um filho nascido em 1949 – António Manuel Vigia Mafra. Vítima de doença, Maria Santana morre muito jovem, com cerca de c. 27 anos.
Mais informação sobre o autor em MatrizNet (clique)
(informação sobre a retratada fornecida por António Manuel Vigia Mafra, outubro 2013).
Guilherme Filipe (1897 Pampilhosa da Serra - 1971) was considered the “artist of the landscape and people of Nazaré" by Tomás Ribas.
From an early age, he showed a natural gift for painting. He attended the School of Fine Arts of Lisbon, some free courses at the National Society of Fine Arts and the studios of Malhoa and Conceição Silva painters.
After a six-year stay in Madrid, where he participated in various exhibitions and salons with famous people of culture, he returned to Portugal and settled in Coimbra. In this city, the poet Eugénio de Castro gave him a studio at the Faculty of Letters and, in 1923, he held his first solo exhibition, moving later to Lisbon.
His connection to Nazaré intensified in the mid-1930s, acquiring here his painting motifs related to the daily labor of this fishing village. He linked to other artists and intellectuals who came to Nazaré, joining the organizing committee of the First Sea Festival in September 1939, in which collaborated Afonso Lopes Vieira, Joaquim Manso, Hipólito Raposo and Almada Negreiros.
Dreaming of "an art gallery, where artists coming from everywhere, would find a shelter and a large and appropriate place for the exhibition of their works" (Borges Garcia, "O Museu da Nazaré", 1976), Guilherme Filipe was an active element in the organization of the Museum of Nazaré, incorporating his first "Group of Friends" (1969).
Several works of this author integrate the collection of the Museum Dr. Joaquim Manso: two portraits of Dr. Joaquim Manso, who was his friend, and other paintings related to the “daily life of Nazaré ", which is the example of the exhibited oil "Woman of Nazaré" (1940), representing the young dressmaker Maria Santana Vigia Chiquito (c.1923-c.1951), to whom he fell in love and had a seven-year relationship.
Adoração dos Reis Magos
F. Bartollozi e Carlo Maratta
Adoração dos Reis Magos, 1811
MDJM inv. 116 Grav.
Evocando a quadra natalícia, entre o variado espólio de gravuras pertencentes ao Museu Dr. Joaquim Manso, evidencia-se uma estampa oitocentista alusiva à Adoração dos Reis Magos, no momento em que estes, ajoelhados, apresentam as suas oferendas ao Menino, sentado ao colo da Virgem, precedida por São José.
Legendas inferiores indicam as autorias da execução da gravura e respetiva data: “F. Bartollozi sculp. Em 1811” e “Carlo Maratta pinx.”.
Esta gravura pertenceu a Tito Calixto, colecionador e figura de cultura muito reconhecida na Nazaré, que exerceu funções na Confraria de Nossa Senhora da Nazaré.
Até janeiro, visite-nos e aprecie a nossa pequena exposição de gravuras dos séculos XVIII e XIX alusivas à Natividade!
Mário Botas, 1974
Mário Botas (1952-1983)
Sem título, 1974
Técnica mista
Oferta do autor
MDJM inv. 28 Des.No ano em que se celebram 30 anos do falecimento de Mário Botas, o Museu Dr. Joaquim Manso evoca o Homem e a obra de um pintor contemporâneo que, nascendo na Nazaré, marcou o panorama artístico nacional.
É “Objeto do Mês” um desenho aguarelado, sobre fundo assimétrico branco e amarelo, representando uma menina com a perna esquerda amputada e muleta sob o braço do mesmo lado.
A temática sugere uma relação com a inquietude do autor, com a doença que cedo lhe limitou a vida, roubando-lhe a esperança e o sonho, amputando-lhe as expectativas no futuro.
Traduzirá esta composição o simbolismo de um mundo avesso, contra o qual não se pode lutar e vencer?! Será um manifesto de raiva, mágoa, dor, medo ou castração?
Excelente aluno, na sua juventude Mário Botas manifestou interesse pela pintura, influenciado por ventura pelos artistas que procuravam inspiração no pitoresco piscatório da comunidade nazarena ou por um familiar que também se dedicava à pintura e à poesia – António Vitorino Laranjo.
Em 1971, Botas fez a sua 1ª exposição individual no posto de turismo da Nazaré. Desde logo, a sua obra indicia uma influência surrealista, cimentada pelo conhecimento de Cruzeiro Seixas, Mário Césariny, Paula Rego,...
Em 1975, após se licenciar em medicina, tem conhecimento que sofre de leucemia e parte para Nova Iorque, em busca de tratamento. Passa a viver num mundo de conflitos, aí intensificando a sua dedicação à pintura, absorvendo influências de Klee, Bosch, Brueghel, entre outros artistas.
A partir de 1978, inspira-se em textos literários, sobretudo de Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro, Dante, Rousseau, Cervantes, entre outros, e a sua obra muda de paradigma – realiza capas para livros, participa em exposições individuais e coletivas e vai abordando temas que, nos últimos anos, sugerem o sofrimento ou a morte.
Precocemente, Mário Botas vem a falecer em 29 setembro de 1983.
Esta obra foi oferecida pelo autor ao Museu Dr. Joaquim Manso, patenteando o seu interesse pela valorização cultural da terra natal, construindo uma ponte entre as suas raízes identitárias e a atmosfera simbólica que sempre evocou.
Celebrating this year the 30th anniversary of the death of Mário Botas, the Museum Dr. Joaquim Manso reminds the man and the work of a painter who was born in Nazaré and marked the national artistic scene.
The subject of our "Piece of the Month" suggests a connection to the restlessness of the author and to the illness that from an early age limited his life. Would it be a manifest of anger, hurt, pain or fear?
During his youth Mário Botas expressed interest in painting, possibly influenced by the artists who visited Nazaré or by Vitorino Laranjo, a relative who also dedicated himself to painting and poetry.
Doctor of Medicine, in 1975 he discovered he had leukemia and soon he left to New York searching for treatment. He started to live in a world of conflict, intensifying his dedication to painting, influenced by the Surrealists and by Klee, Bosch, Brueghel, among other artists.
After 1978, he searched for inspiration in literary texts, designed book covers, participated in several exhibitions and addressed issues that, in the last years of his life, suggested suffering and death, fact that occurred in September 29th, 1983.
This painting was offered to the Museum Dr. Joaquim Manso by the artist, corroborating his interest in the cultural valorization of his homeland and building a link between his roots and the symbolic atmosphere that he always evoked.
Barco da lagoa
Barco da lagoa
miniatura, 11x12x27 cm
Compra a António Dias Pacheco, 1980
MDJM inv. 949 Etn.
Em tempo de verão e de comemoração dos 30 anos do Porto de Abrigo da
Nazaré, destacamos uma miniatura do barco da lagoa, embarcação representativa
de um tipo de pesca tradicional que se praticava na foz do rio Alcoa.
Era uma construção tipo barco de arte xávega, mas com proa semelhante ao barco do candil. É de fundo chato, toda pintada de preto e, no painel da proa, escrito a branco, tem o número “N 1980 L” que corresponde à data do fabrico.
Em tamanho real, esta embarcação destinava-se
à pesca de enguias e “rébaques” na “lagoa”, nome popular para a foz do rio
Alcoa, com recurso a várias artes: tarrafa, galrichos, boqueirões e sertelas.
A “Foz” foi sempre um espaço social muito importante, com costumes que se prolongaram até à construção do porto de abrigo
nos anos 1980.
Desses tempos não muito recuados, apresentamos também fotografias de inícios /
meados do século XX, que testemunham alguns desses
momentos. São os piqueniques organizados pelos “senhoritos” no verão, as “alegres
regatas e outras distrações de canotagem”, os passeios de barco nos Santos
Populares; ir ao banho, para os mais novos, na tão famosa “veia” (bancos de
areia); ir às camarinhas aos “dois bicos”…
E a presença quotidiana das mulheres
carregando as esteiras com que forravam as suas casas, para serem lavadas nas
margens do rio.
Era também na Foz que se passava para a outra margem, de barco ou por uma ponte de madeira, muitas vezes danificada de
propósito pelos barqueiros. Atravessava-se para a pesca do “rolête”, para ir ao
restaurante “Lobos do Mar” ou, simplesmente, para apreciar uma das mais belas
paisagens de toda a costa portuguesa.
Mais informação sobre as miniaturas de "barcos da lagoa" da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso, em MatrizNet (MDJM inv. 949 Etn. e MDJM inv. 1165 Etn.)
In summer time, the Museum highlights as Piece
of the Month a Lagoon Boat miniature, illustrative of a
type of traditional fishing that was practiced at the “Foz”, the mouth of river
Alcoa.
It has the same construction as an “art xávega” boat, but with a prow similar to the “candil” boat. It is flat-bottomed, all painted black, and the bow panel, written in white, has the number "N 1980 L", which is the date of manufacture.
In full-size this boat was
designed for eel and "rébaques" fisheries in the "lagoa"
(popular name for the mouth of river Alcoa), using various arts: nets, fyke
nets, “boqueirões” and “sertelas”.
The "Foz" was always a very important
place in local living, with proper customs and
rituals that lasted until the construction of the fishing Port of Nazaré in the
1980s.
From all those times, we present photographs
from the early/mid-twentieth century, which illustrate
some of those moments. Picnics organized by "senhoritos",
"cheerful regattas and other canoeing distractions", the boat trips
in the Festivals of Popular Saints; young people bathing on the well-known
“veia” (sandbank); crowberries harvest in “dois bicos”...
And the daily
presence of women carrying the straw mats, which they used for covering their
houses, to be washed at the river margins.
It was also in Foz the passageway to the other
side, by boat or crossing a wooden bridge. People
crossed the river to practice high roller fishing, to enjoy the restaurant
"Sea Wolves", or simply to enjoy one of the most beautiful landscapes
of the entire Portuguese coast.
Na praia de banhos, 1915
Álvaro Laborinho (1879-1970)
Na praia de banhos e promontório, 1915
MDJM inv. 1305 Fot.
Em período de férias de verão, destacamos uma das
fotografias de Álvaro Laborinho (1879-1970) sobre a Nazaré “praia de banhos”.
A imagem retrata um trecho da praia, vendo-se
o Promontório com o Forte de S. Miguel e, no areal, filas de barracas brancas.
No mar, várias pessoas tomam banho com auxílio dos banheiros.
A Nazaré identifica-se como uma das mais tradicionais
vilas piscatórias portuguesas e também como uma das mais concorridas “praias de
banhos” do litoral oeste.
É desde os finais do século XIX / primeira
metade do século XX, que prescrições médicas e novos conceitos de saúde e lazer
trazem à Nazaré cada vez mais veraneantes, oriundos sobretudo do Ribatejo. Vir a
banhos obedecia a um ritual de convívio anual.
Álvaro Laborinho fotografou os hábitos
balneares à época.
Hoje, estas imagens continuam a convidar-nos a vir à Nazaré,
para desfrutarmos de uns tempos de descanso e lazer, na continuidade de uma
reconhecida tradição!
Actualmente, a “praia de banhos” é limitada a
norte pelo promontório, visível na imagem, e a sul pelo porto de abrigo,
inaugurado em 1983.
A distribuição das barracas no areal foi conhecendo também
alterações, em função do aumento do número de turistas e da adaptação aos novos
hábitos balneares. Se em tempos mais antigos eram dispostas paralelas ao mar,
posteriormente passaram a estar organizadas em filas perpendiculares ao mar,
feitas de panos às riscas de cores fortes, em contraste com as de antigamente,
brancas e identificadas com o número e o nome do “banheiro”, que alugava as
barracas e auxiliava os banhistas e que, hoje, deu lugar ao “nadador-salvador”
restrito à vigilância e segurança na praia.
Saiba mais em “NAZARÉ. MEMÓRIAS DE UMA PRAIA DE BANHOS”,
Museu Dr. Joaquim Manso / IMC, 2010, à venda na Loja do Museu.
Mulher a lavar peixe
Júlio Goes (n. Vila Nova de Ourém, 1909 - Vila Franca de Xira, 1989)
Mulher a lavar peixe, 1971
Esferográfica sobre papel
Ass. Júlio Goes / 71
dim. 30x43,2 cm
MDJM inv. 166 Des.
Representação de uma cena tradicional de trabalho na praia da Nazaré, ocupando o primeiro plano uma mulher que amanha peixe numa dorna. Mais atrás, sentadas no areal, outra mulher envergando capa e uma criança com lenço à cabeça. Ao fundo, antecedendo o mar e a vista do Promontório, passam dois pescadores, um deles transportando varolas aos ombros.
Até aos anos 1980, para secar ao sol ou para salgar, o peixe era lavado com água do mar e amanhado em dornas de madeira, atualmente substituídas por recipientes de plástico.
O amanho do peixe fazia-se na praia, junto aos “estindartes”, ainda hoje realizado pelas mulheres que continuam a secar o peixe no areal. Depois das vísceras serem retiradas e lavado por várias águas, o peixe fica algumas horas em “moura” (água com sal).
Antes de ser colocado ao sol, o peixe é escalado com o dedo polegar, passa pela “salmoura” e depois novamente na água e é colocado nos paneiros.
Fica a secar ao sol vários dias; se for “peixe enjoado”, ou seja, menos seco, basta a exposição a um dia de sol.
Ao peixe que se destina apenas a ser salgado, são retiradas as tripas e, depois de lavado, é colocado em várias camadas de sal, assim se conservando durante alguns meses.
Ler + sobre a Seca de Peixe na Nazaré, no nosso registo PCI.
Júlio José Pedro Goes era um autodidata, nascido em Vila Nova de Ourém, instalando-se em Vila Franca de Xira em 1916.
Muito amigo do escritor Alves Redol, que elegeu a Nazaré como cenário da sua obra “Uma Fenda na Muralha” (1959), Júlio Goes era fotógrafo de profissão e crítico tauromáquico.
Andarilho infantil
Andarilho, s.d.
Madeira
Oferta Lídia Bombas Valverde, 1990
MDJM inv. 1261 Etn.
No mês em que se celebra o Dia Mundial da Criança, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca o andarilho, objeto de madeira com três rodas, com que as crianças aprendiam a dar os primeiros passos. Estes carrinhos eram feitos pelos próprios pais, passando de geração em geração, entre os vários filhos.
Também os brinquedos eram de produção artesanal, muitas vezes realizados pelas próprias crianças, sendo a rua, a praia ou entre as embarcações, os locais eleitos para as brincadeiras infantis.
Cena da Nazaré
Scene of Nazaré
Tinta-da-china sobre papel / Indian ink on paper
(assinatura ilegível)
Doado por / Donated by Amadeu Gaudêncio, 1974
MDJM inv. 16 Des.
No mês em que se celebra o Dia da Mãe, o Museu Dr. Joaquim Manso apresenta um desenho sobre a vida quotidiana da Nazaré de meados do século XX, onde se destaca em primeiro plano um grupo de mulheres de várias gerações, uma segurando um filho ao colo.
O cenário prolonga-se através da sugestão do mar e de uma fila de pescadores transportando uma rede.
Mas, no “paredão”, está o grupo de mulheres à conversa, “avó”, mães e crianças.
Mas, no “paredão”, está o grupo de mulheres à conversa, “avó”, mães e crianças.
À época, a mulher passava os seus dias na praia, à espera dos barcos, a amanhar ou a secar o peixe para ir vendê-lo na lota ou “fora de corrida”.
Os filhos eram também aí criados, ao colo, na areia… Acompanhavam-na na labuta diária, crescendo na praia, espaço de brincadeiras de um mundo rapidamente tornado adulto…
Desenho oferecido por Amadeu Gaudêncio, construtor civil nazareno que viria a doar ao Estado a casa de veraneio do jornalista Joaquim Manso, para aí se instalar o Museu da Nazaré.
Desenho oferecido por Amadeu Gaudêncio, construtor civil nazareno que viria a doar ao Estado a casa de veraneio do jornalista Joaquim Manso, para aí se instalar o Museu da Nazaré.
Nota: Peça inventariada no Museu Dr. Joaquim Manso sem identificação do autor. Se reconhecer a assinatura, partilhe connosco essa informação!
In the month when we celebrate Mother's Day, Dr. Joaquim Manso Museum displays a drawing of the everyday life of Nazaré during the mid-twentieth century. In the foreground is a group of women of different generations, one holding a child in her lap.
At that time, the women spent their days at the beach, waiting for the fishing boats, preparing or drying fish for sale at auction or the markets in nearby towns.
The children were also raised there, in their arms, on the sand, accompanying mothers on the daily toil, growing on the beach, the place of play turning into adults world ...
In the month when we celebrate Mother's Day, Dr. Joaquim Manso Museum displays a drawing of the everyday life of Nazaré during the mid-twentieth century. In the foreground is a group of women of different generations, one holding a child in her lap.
At that time, the women spent their days at the beach, waiting for the fishing boats, preparing or drying fish for sale at auction or the markets in nearby towns.
The children were also raised there, in their arms, on the sand, accompanying mothers on the daily toil, growing on the beach, the place of play turning into adults world ...
(Translated by Nina Pavlosky, volunteer)
"O Leão"
O Leão - The Lion, 1979
óleo sobre plátex / oil on playtex
ass. e datado, canto
inferior direito: Coelho da Silva/1979
MDJM inv. 91 Pint
Pintura naif da autoria de um artista local, retratando uma “figura típica” da Nazaré de meados do século XX, que
desenvolvia atividade quer no mar quer na agricultura, demonstrando a
articulação entre ambas as atividades económicas.
Num enquadramento rural,
possivelmente nos Caixins, onde os “Leões” tinham as suas hortas, surge em
primeiro plano Fortunato Pimpão, descalço e vestindo o traje tradicional,
segurando na mão esquerda um molho de nabos e, na direita, uma vara que o
auxiliaria na caminhada.
A alcunha de “Leões”,
atribuída aos irmãos Fortunato e António Pimpão, deve-se ao facto de ambos
serem muito robustos, fortes e vigorosos, surgindo retratados em vários postais
da época.
Coelho
da Silva (1909-1995), ourives,
pintor e escultor, foi um autodidacta. Também conhecido por “Vinho Verde”,
devido à terra da sua natalidade – “Baltar”, perto do Porto e região produtora
de vinho verde, Coelho da Silva trabalhou com vários materiais, desde o barro
cozido, o cobre martelado ou a pintura.
Os
temas escolhidos pelo autor registam, sobretudo, motivos de interesse etnográfico
ligados ao quotidiano das gentes da Nazaré e suas figuras populares, como é o
caso da obra agora apresentada, “O Leão” (Fortunato Pimpão).
A
ilustrar a vertente marítima do trabalho dos “Leões”, apresenta-se ainda um postal
(MDJM inv. 362 BPI, Oferta de José Caria Macatrão, 1975)
The painting by local artist in the style of Naïve art,
shows a typical figure of Nazaré from the middle of the XXth century, depicting
maritime and agricultural activities, and demonstrating the link between
both.
It is set in the countryside, possibly at Caixins, where “Lions” had
their farming land. In the foreground is Fortunato Pimpão, wearing traditional costume,
holding in the left hand a bunch of turnips, and in the right hand a walking
stick.
Nicknamed “Lions” for their strong, robust qualities and vigorous
character, brothers Fortunato and António Pimpão were often featured on
postcards of the period.
Coelho da Silva (1909-1995) was a self-taught goldsmith, painter and
sculptor.
He was also known as “Vinho Verde” as a reminder of the place where he
was born - Baltar, close to Porto , the region
famous for the production of “Vinho Verde” wine. Coelho da Silva worked with
different materials, creating art objects in ceramics, repoussé and paintings.
The themes chosen by the artist have ethnographic interest since they
show everyday life of the people of Nazaré and its popular figures, as
represented in the painting “The Lion” (Fortunato Pimpão).
A postcard illustrates the maritime side of the work “The Lions” (MDJM inv. 362 BPI, offered by José Caria Macatrão, 1975).
(translation by Nina Pavlosky, volunteer)
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