Painel de azulejos
Painel de azulejos
Fábrica Battistini de Maria de Portugal, s.d. (final anos 1930-40?)
Em agosto, destacamos um elemento decorativo integrante do edifício do Museu Dr. Joaquim Manso e que relembra a sua função inicial como moradia particular, ao mesmo tempo que remete para uma tradição local de colocar na fachada registos alusivos ao Milagre de Nossa Senhora da Nazaré, do Senhor dos Passos, outras evocações religiosas e marítimas.
No exterior do edifício do Museu Dr. Joaquim Manso, no terraço adornado de colunas e pérgola, à esquerda da primitiva porta de acesso à moradia, está patente um painel de azulejo, azul e branco com apontamentos a amarelo, verde e castanho na decoração floral.
Envolta por moldura de concheados, recuperando a tradição azulejar portuguesa do século XVIII, surge uma representação de Nossa Senhora da Nazaré, sobre paisagem onde se avista o Promontório e o mar com diversas embarcações.
Em cartela central de fundo amarelo, reproduzem-se os seguintes versos assinados por Maria de Portugal:
“Senhora da Nazareth
Ajude o mar a ter fé,
Ensine a onda a resar:
Olhe, as mães dos pescadores
Já sofreram tantas dores,
Precisam de descançar”
No lado inferior direito, lê-se “Fca Battistini de Maria de Portugal”.
“Maria de Portugal” é o pseudónimo de Albertina dos Santos Leitão (1884-1971), pintora e ceramista discípula de Leopoldo Battistini (1865-1936), artista de origem italiana, grande impulsionador da fábrica de Cerâmica Constância, em Lisboa (Lapa). Após a sua morte, Maria de Portugal tornou-se sua proprietária e assumiu a direção artística, passando a fábrica a ostentar o nome de “Fábrica Battistini de Maria de Portugal”.
O Museu Dr. Joaquim Manso está instalado na antiga casa de veraneio do Dr. Joaquim Manso (1878-1956), escritor e jornalista, fundador do “Diário de Lisboa”. Construída no Sítio da Nazaré, na 1ª metade do séc. XX, em 1968 moradia é oferecida ao Estado para aqui instalar o Museu da Nazaré, pelo benemérito nazareno e empresário da construção civil Amadeu Gaudêncio (1889-1980).
Rapa "Praia do Norte"
Rapa
"Praia do Norte"
(miniatura)
Augusto
Sabino, s.d.
MDJM
inv. 948 Etn.
Durante
este mês, no Museu Dr. Joaquim Manso, revive-se a memória da pesca
artesanal da Nazaré, através do destaque dado a uma Rapa.
Este
tipo de embarcação resulta da evolução e adaptação da
traineira, praticando, à semelhança desta, a pesca com rede de
cerco.
Regista-se
a utilização de lancha auxiliar e de outro equipamento tecnológico
mais moderno, nomeadamente casa de motor, rádio, radiogoniómetro,
luzes avisadoras, entre outros.
Esta
miniatura corresponde ao original na construção, decoração,
denominação e matrícula.
Repare-se
na sua denomição “Praia do Norte”, hoje tão em voga pela
atração dos surfistas pelas grandes ondas, durante o inverno.
"Tacoa", de F. Lino
Fernando Lino
Tacoa, s.d.
Técnica mista sobre papel
Aquisição pelo MDJM, 1984
MDJM inv. 117 des.
Na Nazaré, todos se lembram da “Tacoa”.
Rosária Meca Tacoa, filha do marítimo José Veríssimo Tacoa e da peixeira Maria da Soledade Meca, nasceu em 10 de dezembro de 1929, na Nazaré.
Figura bastante conhecida nesta vila, a Tacoa distinguia-se, sobretudo, pelo seu traje regional, modesto, pardacento e já muito gasto. Um velho chapéu sobre a capa reforçava um tipicismo próprio, que os turistas não perdiam a oportunidade de fotografar e filmar.
Pelo seu linguarejar brejeiro, onde não faltavam as pragas, era considerada como alguém que “não tem o juízo todo”, ideia que ela vivamente rejeitava, afirmando: “eu não sofro da cabeça! Dão-me é ataques epiléctricos no coração”!
Com oito anos, trabalhava já numa padaria e, mais tarde, até 1957/58, numa fábrica de conservas de peixe.
Em 1966, casou com o pescador José Pai João, de quem enviuvou em 1982.
Uma das facetas, talvez a mais desconhecida da Tacoa, era a sua facilidade de versejar.
Em junho, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca esta "figura" da Nazaré, através de um trabalho popular de Fernando Lino, que chegou a ser desenhador do Museu.
Esta é também uma oportunidade de a relembrar através da criatividade das crianças do 3º ano do Agrupamento de Escolas da Nazaré, que virão ao Museu, no dia 6 de junho, expor os seus trabalhos do projeto "Salpicos", baseados em representações da Tacoa.
Desenho de Stuart Carvalhais

Stuart Carvalhais (1887–1961)
Sem título, s.d
Tinta-da-China
MDJM inv. 100 Des.
Trabalho a tinta-da-China, onde um bando de perús é encaminhado por um homem com uma vara, num dirigismo satirizado.
A arte da sátira gráfica desenvolve-se na Europa a partir dos finais do século XVIII. Em Portugal, regista-se um incremento deste tipo de crítica com o liberalismo, no século XIX.
Neste mundo de irreverência e humorismo, onde há uma convivência entre o riso, a sátira e a caricatura, destaca-se, entre outros, Stuart Carvalhais, autor de figuras e tiras de banda desenhada como “Quim e Manecas”, a série mais longa com cerca de 500 episódios (entre 1915 e 1953), cujo conteúdo é enriquecido através de uma ponte com a realidade social e política do país.
Stuart Carvalhais, com Christiano Cruz, Almada Negreiros e Jorge Barradas, entre outros, fundaram também a sociedade de humoristas “vid'airada” e o jornal “Sátira” (1911).
José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, mais conhecido por Stuart Carvalhais, filho de pai português e mãe inglesa, nasceu na zona do Douro.
Artista multifacetado, distinguiu-se como pintor, desenhador, ilustrador, caricaturista e autor de banda desenhada, dedicando-se também à fotografia, cenografia e cinema.
Viveu a sua primeira experiência nos jornais como repórter fotográfico. É n' “O Século” que publica os primeiros desenhos, em 1906, iniciando o trabalho de banda desenhada no ano seguinte.
Vivendo em Paris em 1912 – 1913, integra também neste período a I e a II Exposição dos Humoristas Portugueses.
Em 1914, colaborou no jornal satírico “Papagaio Real”, então sob a direção de Almada Negreiros.
Casado com a varina Fausta Moreira, de quem teve um filho, Raul Carvalhais.
Joaquim Manso (1878-1956), patrono deste Museu instalado na sua moradia de veraneio na Nazaré, era próximo destes artistas portugueses, sendo as páginas do jornal que dirigia - “Diário de Lisboa” - o suporte para divulgação de muitas das suas iniciativas e ideias.
É através da sua coleção, por doação do filho Pedro Manso Lefèvre em 1977, que este trabalho de Stuart de Carvalhais vem integrar o espólio do Museu da Nazaré, a par de outros trabalhos, deste e de outros artistas desta geração.
Consulte este desenho no MatrizNet.
Em destaque em abril
Roberto Araújo (1909 – 1969)
Sem título, s.d.
Tinta da china sobre papel
Oferta de Pedro Manso Lefévre, 1977
MDJM inv. 99 Des.
No mês em que se comemoram os 40 anos da “Revolução dos Cravos”, ocorrida a 25 de abril de 1974, o Museu Dr. Joaquim Manso seleciona do seu espólio, como “Objeto do mês de abril”, um emblemático desenho de Roberto Araújo.
Pintor e ilustrador, aluno da Escola de Belas Artes de Lisboa e de cenografia no Conservatório Nacional de Teatro, Ricardo Araújo foi autor de cenários e decorações para várias companhias de teatro e filmes, como “O Pai Tirano” e o “Pátio das Cantigas”, depois de se ter iniciado com a peça “Divórcio”, de Ilda Stichini, em 1933.
Em 1934, ganha o 1º Prémio de Ilustração num concurso da Junta de Educação Nacional e, como bolseiro, visita Espanha, Bélgica e Alemanha. Foi professor na Escola de Artes Decorativas António Arroio.
Casa-se em 1931, pelo registo civil, com a filha de César Porto, Manuela Porto (1912-1950), colaboradora do jornal “Diário de Lisboa” (fundado por Joaquim Manso).
Herdeiro dos pais, Araújo Pereira e Emília de Araújo Pereira, da crítica oposição à situação política e cultural vigente, teve uma postura ativa contra o regime de Salazar, sendo muitas das suas obras protestos contra as medidas tomadas pela ditadura.
Ainda que se desconheça a justificação inicial da sua produção, destinando-se porventura a um fim ilustrativo ou cenográfico, o desenho agora em destaque aproxima-se deste intento de protesto pela conjuntura política em que Portugal se encontrava, evocando um grito de revolta e tentativa de libertação, que nos remete ainda para a célebre pintura de Eugène Delacroix, “A Liberdade Guiando o Povo” (1930), inspiradora da consequente iconografia republicana de vários países, incluindo da portuguesa.
Desenvolvido em composição triangular, constituída por quatro elementos femininos, uma figura central em segundo plano está de pé, usando barrete republicano e direcionando a cabeça para o lado esquerdo. À sua frente, apoia-se outra figura feminina, com um dos seios descobertos, de braços erguidos ao alto, com uma algema em cada punho. Em plano inferior e ladeando as figuras centrais, estão duas figuras sentadas, que olham para cima. A da esquerda ostenta uma espada com ambas as mãos.
Do círculo de convívio de Roberto Araújo faziam parte Almada Negreiros, Thomaz deMello, Abel Manta, Sena da Silva, entre outros. Recordemos que a esposa foi colaboradora do “Diário de Lisboa” e seriam também próximos do jornalista Joaquim Manso. É através do filho deste, Pedro Manso Lefèvre, que este trabalho é doado em 1977 a este Museu, de que o escritor é patrono, por ter sido na sua residência de veraneio que se viria a instalar o tão ansiado Museu da Nazaré.
Tragédia Marítima
Henrique Moreira (1889 - 1979)
Tragédia marítima, 1941
Bronze, alt. 35,5 cm
MDJM inv. 4 Esc.
Grupo escultórico, de grande carga emotiva, evocando a “tragédia marítima” de um naufrágio.
Sobre um homem desfalecido na praia, gesticulam duas mulheres envoltas em capas largas e lenços na cabeça, uma de joelhos com o braço esquerdo erguido sobre a cabeça virada ao alto, como que gritando, e a outra debruçada sobre o corpo, abraçando-o, como que o chamasse à vida.
Esta composição, repleta de dramatismo, revela o forte sentimento de perda, comum a todas as mulheres desta terra de pescadores – a Nazaré.
Mais informação em MatrizNet.
Festejando o São Brás
Festejando o São Brás, 1979
MDJM inv. 43-2-4 Fot.
“O Carnaval é um folguedo. Pois folgamos todos. E quando chega a festa do S. Brás, em três de Fevereiro logo a brincadeira começa. Qualquer pretexto serve para as pessoas se refugiarem no esquecimento”.
Alves Redol
Num dos festejos populares mais genuínos, no dia 3 de
Fevereiro, as gentes da Nazaré sobem ao Monte de São Bartolomeu ou Monte de São
Brás, lugar místico associado à Lenda de Nossa Senhora da Nazaré e onde se
situa a pequena ermida caiada de branco, tradicionalmente com três imagens
sobre singelo altar: Nossa Senhora das Candeias (2 de Fevereiro), São
Bartolomeu e São Brás (3 de Fevereiro), este último orago da capela.
Dizem que vão pagar as suas promessas. Antigamente, as mais
evidentes eram as das raparigas solteiras, que levavam uma telha para a capela,
para serem bafejadas com a sorte de arranjar um namorado e assim casar.
Mas, sobretudo, para os nazarenos, esta é a festa que marca
o início oficial da folia carnavalesca, num crescendo de animação até à semana
do Entrudo. Crianças e adultos, todos envergam os seus trajes tradicionais ou
vão mascarados (“ensaiados”) com coisas que vão buscar às arcas, num “traje
trapalhão”.
Antes a pé, hoje mais de carro, é de ver os “romeiros” com os
cestos de comida para fazerem os seus piqueniques, no sopé do monte. Do
“farnel” constam carnes de porco para grelhar, chouriço, morcela de arroz e toucinho.
Os antigos costumavam levar sardinhas salgadas, que comiam com broa, tradição
mantida por alguns. Assim como não pode deixar de faltar o garrafão de vinho,
para animar…
Assim que se chega ao pinhal, há que procurar lenha para se
fazer a fogueira e preparar a merenda. Por fim, depois de “bem comidos e bem
regados”, salta-se a fogueira, juntam-se vários grupos e começa o bailarico com
instrumentos improvisados, hoje substituídos por banda musical contratada.
É aqui que, mais recentemente, também se faz a primeira
apresentação dos Reis do Carnaval.
Antes da partida, na feira que sempre se organiza, os
foliões compram pinhões e enfiadas de maçã seca, que são curadas no fumeiro e
que as raparigas vaidosamente ostentavam como colares ao pescoço.
O regresso era feito em grupo, a cantar de alegria. A festa era
continuada nas tabernas. Hoje, fica-se no pinhal ou na rua até ao limite do
cansaço.
Agora todos têm que se preparar… porque o Carnaval está à porta!
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