Mário Botas, 1974



















Mário Botas (1952-1983)
Sem título, 1974
Técnica mista
Oferta do autor
MDJM inv. 28 Des.


No ano em que se celebram 30 anos do falecimento de Mário Botas, o Museu Dr. Joaquim Manso evoca o Homem e a obra de um pintor contemporâneo que, nascendo na Nazaré, marcou o panorama artístico nacional.

É “Objeto do Mês” um desenho aguarelado, sobre fundo assimétrico branco e amarelo, representando uma menina com a perna esquerda amputada e muleta sob o braço do mesmo lado.

A temática sugere uma relação com a inquietude do autor, com a doença que cedo lhe limitou a vida, roubando-lhe a esperança e o sonho, amputando-lhe as expectativas no futuro.
Traduzirá esta composição o simbolismo de um mundo avesso, contra o qual não se pode lutar e vencer?! Será um manifesto de raiva, mágoa, dor, medo ou castração?

Excelente aluno, na sua juventude Mário Botas manifestou interesse pela pintura, influenciado por ventura pelos artistas que procuravam inspiração no pitoresco piscatório da comunidade nazarena ou por um familiar que também se dedicava à pintura e à poesia – António Vitorino Laranjo.

Em 1971, Botas fez a sua 1ª exposição individual no posto de turismo da Nazaré. Desde logo, a sua obra indicia uma influência surrealista, cimentada pelo conhecimento de Cruzeiro Seixas, Mário Césariny, Paula Rego,...

Em 1975, após se licenciar em medicina, tem conhecimento que sofre de leucemia e parte para Nova Iorque, em busca de tratamento. Passa a viver num mundo de conflitos, aí intensificando a sua dedicação à pintura, absorvendo influências de Klee, Bosch, Brueghel, entre outros artistas. 

A partir de 1978, inspira-se em textos literários, sobretudo de Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro, Dante, Rousseau, Cervantes, entre outros, e a sua obra muda de paradigma – realiza capas para livros, participa em exposições individuais e coletivas e vai abordando temas que, nos últimos anos, sugerem o sofrimento ou a morte. 
Precocemente, Mário Botas vem a falecer em 29 setembro de 1983.

Esta obra foi oferecida pelo autor ao Museu Dr. Joaquim Manso, patenteando o seu interesse pela valorização cultural da terra natal, construindo uma ponte entre as suas raízes identitárias e a atmosfera simbólica que sempre evocou. 



Celebrating this year the 30th anniversary of the death of Mário Botas, the Museum Dr. Joaquim Manso reminds the man and the work of a painter who was born in Nazaré and marked the national artistic scene.

The subject of our "Piece of the Month" suggests a connection to the restlessness of the author and to the illness that from an early age limited his life. Would it be a manifest of anger, hurt, pain or fear?

During his youth Mário Botas expressed interest in painting, possibly influenced by the artists who visited Nazaré or by Vitorino Laranjo, a relative who also dedicated himself to painting and poetry.

Doctor of Medicine, in 1975 he discovered he had leukemia and soon he left to New York searching for treatment. He started to live in a world of conflict, intensifying his dedication to painting, influenced by the Surrealists and by Klee, Bosch, Brueghel, among other artists.

After 1978, he searched for inspiration in literary texts, designed book covers, participated in several exhibitions and addressed issues that, in the last years of his life, suggested suffering and death, fact that occurred in September 29th, 1983.

This painting was offered to the Museum Dr. Joaquim Manso by the artist, corroborating his interest in the cultural valorization of his homeland and building a link between his roots and the symbolic atmosphere that he always evoked.

Barco da lagoa














Barco da lagoa 
miniatura, 11x12x27 cm 
Compra a António Dias Pacheco, 1980
MDJM inv. 949 Etn.

Em tempo de verão e de comemoração dos 30 anos do Porto de Abrigo da Nazaré, destacamos uma miniatura do barco da lagoa, embarcação representativa de um tipo de pesca tradicional que se praticava na foz do rio Alcoa.
Era uma construção tipo barco de arte xávega, mas com proa semelhante ao barco do candil. É de fundo chato, toda pintada de preto e, no painel da proa, escrito a branco, tem o número “N 1980 L” que corresponde à data do fabrico.
 
Em tamanho real, esta embarcação destinava-se à pesca de enguias e “rébaques” na “lagoa”, nome popular para a foz do rio Alcoa, com recurso a várias artes: tarrafa, galrichos, boqueirões e sertelas.

A “Foz” foi sempre um espaço social muito importante, com costumes que se prolongaram até à construção do porto de abrigo nos anos 1980.

Desses tempos não muito recuados, apresentamos também fotografias de inícios / meados do século XX, que testemunham alguns desses momentos. São os piqueniques organizados pelos “senhoritos” no verão, as “alegres regatas e outras distrações de canotagem”, os passeios de barco nos Santos Populares; ir ao banho, para os mais novos, na tão famosa “veia” (bancos de areia); ir às camarinhas aos “dois bicos”…
E a presença quotidiana das mulheres carregando as esteiras com que forravam as suas casas, para serem lavadas nas margens do rio.

Era também na Foz que se passava para a outra margem, de barco ou por uma ponte de madeira, muitas vezes danificada de propósito pelos barqueiros. Atravessava-se para a pesca do “rolête”, para ir ao restaurante “Lobos do Mar” ou, simplesmente, para apreciar uma das mais belas paisagens de toda a costa portuguesa.

Mais informação sobre as miniaturas de "barcos da lagoa" da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso, em MatrizNet (MDJM inv. 949 Etn. e MDJM inv. 1165 Etn.)


In summer time, the Museum highlights as Piece of the Month a Lagoon Boat miniature, illustrative of a type of traditional fishing that was practiced at the “Foz”, the mouth of river Alcoa.
It has the same construction as an “art xávega” boat, but with a prow similar to the “candil” boat.  It is flat-bottomed, all painted black, and the bow panel, written in white, has the number "N 1980 L", which is the date of manufacture.
 
In full-size this boat was designed for eel and "rébaques" fisheries in the "lagoa" (popular name for the mouth of river Alcoa), using various arts: nets, fyke nets, “boqueirões” and “sertelas”.

The "Foz" was always a very important place in local living, with proper customs and rituals that lasted until the construction of the fishing Port of Nazaré in the 1980s.

From all those times, we present photographs from the early/mid-twentieth century, which illustrate some of those moments. Picnics organized by "senhoritos", "cheerful regattas and other canoeing distractions", the boat trips in the Festivals of Popular Saints; young people bathing on the well-known “veia” (sandbank); crowberries harvest in “dois bicos”...
And the daily presence of women carrying the straw mats, which they used for covering their houses, to be washed at the river margins.

It was also in Foz the passageway to the other side, by boat or crossing a wooden bridge. People crossed the river to practice high roller fishing, to enjoy the restaurant "Sea Wolves", or simply to enjoy one of the most beautiful landscapes of the entire Portuguese coast.

Na praia de banhos, 1915















Álvaro Laborinho (1879-1970)
Na praia de banhos e promontório, 1915
MDJM inv. 1305 Fot.



Em período de férias de verão, destacamos uma das fotografias de Álvaro Laborinho (1879-1970) sobre a Nazaré “praia de banhos”.
A imagem retrata um trecho da praia, vendo-se o Promontório com o Forte de S. Miguel e, no areal, filas de barracas brancas. No mar, várias pessoas tomam banho com auxílio dos banheiros.

A Nazaré identifica-se como uma das mais tradicionais vilas piscatórias portuguesas e também como uma das mais concorridas “praias de banhos” do litoral oeste.
É desde os finais do século XIX / primeira metade do século XX, que prescrições médicas e novos conceitos de saúde e lazer trazem à Nazaré cada vez mais veraneantes, oriundos sobretudo do Ribatejo. Vir a banhos obedecia a um ritual de convívio anual.

Álvaro Laborinho fotografou os hábitos balneares à época.
Hoje, estas imagens continuam a convidar-nos a vir à Nazaré, para desfrutarmos de uns tempos de descanso e lazer, na continuidade de uma reconhecida tradição! 

Actualmente, a “praia de banhos” é limitada a norte pelo promontório, visível na imagem, e a sul pelo porto de abrigo, inaugurado em 1983.
A distribuição das barracas no areal foi conhecendo também alterações, em função do aumento do número de turistas e da adaptação aos novos hábitos balneares. Se em tempos mais antigos eram dispostas paralelas ao mar, posteriormente passaram a estar organizadas em filas perpendiculares ao mar, feitas de panos às riscas de cores fortes, em contraste com as de antigamente, brancas e identificadas com o número e o nome do “banheiro”, que alugava as barracas e auxiliava os banhistas e que, hoje, deu lugar ao “nadador-salvador” restrito à vigilância e segurança na praia.

Saiba mais em “NAZARÉ. MEMÓRIAS DE UMA PRAIA DE BANHOS”, Museu Dr. Joaquim Manso / IMC, 2010, à venda na Loja do Museu.

Mulher a lavar peixe














Júlio Goes (n. Vila Nova de Ourém, 1909 - Vila Franca de Xira, 1989)
Mulher a lavar peixe, 1971
Esferográfica sobre papel
Ass. Júlio Goes / 71
dim. 30x43,2 cm
MDJM inv. 166 Des.


Representação de uma cena tradicional de trabalho na praia da Nazaré, ocupando o primeiro plano uma mulher que amanha peixe numa dorna. Mais atrás, sentadas no areal, outra mulher envergando capa e uma criança com lenço à cabeça. Ao fundo, antecedendo o mar e a vista do Promontório, passam dois pescadores, um deles transportando varolas aos ombros.


Até aos anos 1980, para secar ao sol ou para salgar, o peixe era lavado com água do mar e amanhado em dornas de madeira, atualmente substituídas por recipientes de plástico.

O amanho do peixe fazia-se na praia, junto aos “estindartes”, ainda hoje realizado pelas mulheres que continuam a secar o peixe no areal. Depois das vísceras serem retiradas e lavado por várias águas, o peixe fica algumas horas em “moura” (água com sal).

Antes de ser colocado ao sol, o peixe é escalado com o dedo polegar, passa pela “salmoura” e depois novamente na água e é colocado nos paneiros.
Fica a secar ao sol vários dias; se for “peixe enjoado”, ou seja, menos seco, basta a exposição a um dia de sol.

Ao peixe que se destina apenas a ser salgado, são retiradas as tripas e, depois de lavado, é colocado em várias camadas de sal, assim se conservando durante alguns meses.

Ler + sobre a Seca de Peixe na Nazaré, no nosso registo PCI.

Júlio José Pedro Goes era um autodidata, nascido em Vila Nova de Ourém, instalando-se em Vila Franca de Xira em 1916.

Muito amigo do escritor Alves Redol, que elegeu a Nazaré como cenário da sua obra “Uma Fenda na Muralha” (1959), Júlio Goes era fotógrafo de profissão e crítico tauromáquico.

Andarilho infantil



















Andarilho, s.d.
Madeira
Oferta Lídia Bombas Valverde, 1990
MDJM inv. 1261 Etn.

No mês em que se celebra o Dia Mundial da Criança, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca o andarilho, objeto de madeira com três rodas, com que as crianças aprendiam a dar os primeiros passos. Estes carrinhos eram feitos pelos próprios pais, passando de geração em geração, entre os vários filhos.

Também os brinquedos eram de produção artesanal, muitas vezes realizados pelas próprias crianças, sendo a rua, a praia ou entre as embarcações, os locais eleitos para as brincadeiras infantis.


Cena da Nazaré

Cena da Nazaré, 1966
Scene of Nazaré
Tinta-da-china sobre papel / Indian ink on paper 
(assinatura ilegível)
Doado por / Donated by Amadeu Gaudêncio, 1974
MDJM inv. 16 Des.


No mês em que se celebra o Dia da Mãe, o Museu Dr. Joaquim Manso apresenta um desenho sobre a vida quotidiana da Nazaré de meados do século XX, onde se destaca em primeiro plano um grupo de mulheres de várias gerações, uma segurando um filho ao colo. 


O cenário prolonga-se através da sugestão do mar e de uma fila de pescadores transportando uma rede.
Mas, no “paredão”, está o grupo de mulheres à conversa, “avó”, mães e crianças.
À época, a mulher passava os seus dias na praia, à espera dos barcos, a amanhar ou a secar o peixe para ir vendê-lo na lota ou “fora de corrida”.
Os filhos eram também aí criados, ao colo, na areia… Acompanhavam-na na labuta diária, crescendo na praia, espaço de brincadeiras de um mundo rapidamente tornado adulto…

Desenho oferecido por Amadeu Gaudêncio, construtor civil nazareno que viria a doar ao Estado a casa de veraneio do jornalista Joaquim Manso, para aí se instalar o Museu da Nazaré.

Nota: Peça inventariada no Museu Dr. Joaquim Manso sem identificação do autor. Se reconhecer a assinatura, partilhe connosco essa informação! 



In the month when we celebrate Mother's Day, Dr. Joaquim Manso Museum displays a drawing of the everyday life of Nazaré during the mid-twentieth century. In the foreground is a group of women of different generations, one holding a child in her lap. 

At that time, the women spent their days at the beach, waiting for the fishing boats, preparing or drying fish for sale at auction or the markets in nearby towns.

The children were also raised there, in their arms, on the sand, accompanying mothers on the daily toil, growing on the beach, the place of play turning into adults world ...

(Translated by Nina Pavlosky, volunteer)

"O Leão"


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Manuel Coelho da Silva (Paredes, 1909 - Nazaré, 1995)
O Leão - The Lion, 1979
óleo sobre plátex / oil on playtex
ass. e datado, canto inferior direito: Coelho da Silva/1979
MDJM inv. 91 Pint

  

Pintura naif da autoria de um artista local, retratando uma “figura típica” da Nazaré de meados do século XX, que desenvolvia atividade quer no mar quer na agricultura, demonstrando a articulação entre ambas as atividades económicas.

Num enquadramento rural, possivelmente nos Caixins, onde os “Leões” tinham as suas hortas, surge em primeiro plano Fortunato Pimpão, descalço e vestindo o traje tradicional, segurando na mão esquerda um molho de nabos e, na direita, uma vara que o auxiliaria na caminhada.

A alcunha de “Leões”, atribuída aos irmãos Fortunato e António Pimpão, deve-se ao facto de ambos serem muito robustos, fortes e vigorosos, surgindo retratados em vários postais da época.

Coelho da Silva (1909-1995), ourives, pintor e escultor, foi um autodidacta. Também conhecido por “Vinho Verde”, devido à terra da sua natalidade – “Baltar”, perto do Porto e região produtora de vinho verde, Coelho da Silva trabalhou com vários materiais, desde o barro cozido, o cobre martelado ou a pintura.

Os temas escolhidos pelo autor registam, sobretudo, motivos de interesse etnográfico ligados ao quotidiano das gentes da Nazaré e suas figuras populares, como é o caso da obra agora apresentada, “O Leão” (Fortunato Pimpão).


A ilustrar a vertente marítima do trabalho dos “Leões”, apresenta-se ainda um postal (MDJM inv. 362 BPI, Oferta de José Caria Macatrão, 1975)

 

 




The painting by local artist in the style of Naïve art, shows a typical figure of Nazaré from the middle of the XXth century, depicting maritime and agricultural activities,  and demonstrating the link between both.

It is set in the countryside, possibly at Caixins, where “Lions” had their farming land. In the foreground is Fortunato Pimpão, wearing traditional costume, holding in the left hand a bunch of turnips, and in the right hand a walking stick.

Nicknamed “Lions” for their strong, robust qualities and vigorous character, brothers Fortunato and António Pimpão were often featured on postcards of the period.

Coelho da Silva (1909-1995) was a self-taught goldsmith, painter and sculptor.

He was also known as “Vinho Verde” as a reminder of the place where he was born - Baltar, close to Porto, the region famous for the production of “Vinho Verde” wine. Coelho da Silva worked with different materials, creating art objects in ceramics, repoussé and paintings.

The themes chosen by the artist have ethnographic interest since they show everyday life of the people of Nazaré and its popular figures, as represented in the painting “The Lion” (Fortunato Pimpão).

A postcard illustrates the maritime side of the work “The Lions” (MDJM inv. 362 BPI, offered by José Caria Macatrão, 1975).
 
(translation by Nina Pavlosky, volunteer)