Avental de Festa


Avental de Festa, 1936
alt. 73 cm; larg. 115cm
Cetim fulgurante
Doação da autora, Celeste Lúcio dos Santos, 1974
MDJM inv. 248 Etn.


Na Nazaré, por altura da Páscoa, sempre foi com orgulho que se vestiu o “traje de festa”. Como peça fundamental do traje feminino, emprestando-lhe cor e riqueza, para esta época as mulheres reservavam os seus melhores aventais, que exibiam com certa vaidade, muitas vezes bordados à mão pelas próprias.
É exemplo deste avental, que pertenceu a Celeste Lúcio dos Santos (1902-1997), natural do Sítio da Nazaré. À semelhança de tantas outras jovens nazarenas, dedicou-se à costura desde nova, mas eram os bordados que mais a atraíam. “Sabia quase todos os pontos à mão”.
Ensinou à filha, Maria Celeste Lúcio de Oliveira Marques, tudo o que sabia. Ao lado da mãe, ainda rapariga, também ela começou a bordar os aventais, o que ainda hoje faz por encomenda.
Os clientes eram muitos: mulheres que pediam aventais para quando os maridos chegassem da pesca do bacalhau (em Outubro), outras para as Festas de N. Sra. da Nazaré (8 Setembro), ou para o Natal. Estas eram as datas de maior trabalho.


José Soares, Cabeça de nazarena

   



José Soares (n.1922)
Cabeça de nazarena, anos 1960
Óleo sobre papel
MDJM inv. 64 Pint.


No mês de Março, destacamos a pintura "Cabeça de nazarena", do autor local José Soares. Em pinceladas largas e espontâneas, sugere-se o rosto de uma nazarena, envolta pela capa tradicional.
José Soares, escritor e estudioso da cultura local, publicou vários trabalhos sobre a história, costumes e tradições da Nazaré, privilegiando um contacto estreito com artistas e intelectuais que frequentavam esta praia em meados do século XX. Esta proximidade incitou uma vontade de desenvolver algumas experiências no campo pictórico, de que resultaram pequenas composições, ainda pouco divulgadas e de que o Museu Dr. Joaquim Manso conserva alguns exemplares, como este pequeno óleo.

José Soares da Conceição, carinhosamente tratado por “Zé Soares”, é uma referência na Nazaré, pelo seu saber e vasto entendimento sobre a cultura e identidade local.
Nascido na Nazaré, em 24 de maio de 1922, filho de gente do mar, do seu percurso e experiência de vida resultaram o gosto pela investigação em vários domínios sócio-culturais, tendo como rumo uma melhor compreensão das raízes e contexto patrimonial desta vila piscatória.
A sua atividade como técnico de turismo proporcionou-lhe um contacto privilegiado com a realidade local e uma proximidade com figuras de prestígio das Artes e das Letras que, por motivos profissionais ou atraídos pelas singularidades das gentes e costumes da Nazaré, aqui se fixaram temporariamente.
Com uma forte intervenção a nível comunitário, ao longo da sua vida, José Soares dedicou especial atenção ao tecido cultural da vila. Do contacto com Branquinho da Fonseca (1905-1974), que permaneceu alguns anos na Nazaré nas décadas de 1930-40, como Conservador do Registo Civil, sobressai a partilha de informações que terão contribuído para o seu romance “Mar Santo” (1952). Sendo Branquinho da Fonseca fundador da Biblioteca da Nazaré, a José Soares se deve a sua recuperação e reativação, em 1972.

Banda Infernal do Sítio













Banda Infernal do Sítio
Foto Laborinho, 1965
MDJM inv. 3232 Fot.

“E os grupos cruzam-se, as bandas infernais surgem de todos os cantos, irrequietas, subindo e descendo, parando para bailar, bailando para cantar, bailando para esquecer – ah amigos! – esquecendo para sofrer, sofrendo para comer, e sempre vivas, exuberantes, vozes como pendões, até às tantas, como se quisessem rir e cantar até à loucura. O espectáculo é para eles – esquecer e desabafar.”

Alves Redol, in A Nazaré na obra de Alves Redol, MDJM, 1980



Bandas Infernais
As bandas infernais são uma das vertentes mais caraterísticas do Carnaval da Nazaré e a sua origem deve remontar aos princípios do século XX.

A origem
Segundo José Maria Pequicho (n. 1935), atual maestro da Filarmónica da Nazaré, a denominação “Banda Infernal” provém do nome da música/marcha tocada nas manhãs do Domingo Gordo.
Permanece ainda na memória o Silvestre dos “Bichinhos”, siteiro que morava na “Rua de Cima” e que aparecia no domingo de Carnaval, de madrugada, percorrendo as ruas, a tocar pífaro, entoando uma determinada música conhecida por “marcha infernal”. Nos anos seguintes, foram-se juntando a ele outras pessoas (apenas homens), também elementos da Banda Nazarense, do Sítio, que, com outros instrumentos, aperfeiçoaram a música.
Esta banda percorria as ruas do Sítio e da Praia, tocando o refrão daquela marcha. Só desenvolvia a composição musical, conhecida por “hino”, quando as pessoas ofereciam alguma moeda. Se o donativo fosse substancial, tocava o “hino” duas vezes. O grupo passou a ser conhecido por “banda infernal”, estando na origem das actuais “bandas infernais” (cerca de 18).
Se, primitivamente, a “banda infernal” utilizava instrumentos musicais, os grupos seguintes, sobretudo os da Praia, recorriam a outros objetos para “fazer barulho” e atingir o principal objetivo: acordar a população, convidando-a para a festa.
Formadas principalmente por homens, havia também “bandas infernais" mistas, compostas por homens, mulheres e crianças. Na generalidade, eram de formação espontânea. Os “ensaiados” (mascarados) reuniam-se em grupos que, munidos de bombos, tachos e panelas velhas, tudo faziam para provocar barulhos estridentes e ensurdecedores.

Na atualidade
Este costume prolongou-se até aos nossos dias, adquirindo uma expressiva movimentação social. Em formações separadas (masculinas e femininas), mas já com uma certa organização, as bandas passaram a ser conhecidas pela denominação, vestes e músicas, surgindo um salutar espírito de competição que anima o período anterior à semana de Carnaval.
A mulher adquire, agora, um papel predominante e confere às bandas um novo “visual”, mais cor e fantasia, substituindo tachos e panelas por tarolas, pandeiretas e outros instrumentos musicais.
Cada “banda infernal”, em reuniões sucessivas, concebe um figurino (confecionado pelos próprios   elementos ou por costureiras locais e para cerca de 3 anos ) e elabora a sua marcha com letra satírica inspirada na realidade nazarena. Um mês antes do Carnaval, as marchas de todas as “bandas infernais” e grupos carnavalescos são publicamente anunciadas e divulgadas, incentivando a população até ao Entrudo.
Chegada a manhã do Domingo Gordo, as ruas do Sítio, da Praia e Pederneira enchem-se finalmente das “bandas infernais”. Vestidas a rigor, é então o tempo de desfilarem, cantando e dançando, para divertimento de toda a Nazaré. Como concluiu o escritor Alves Redol, “O Carnaval é folguedo, pois folguemos todos”!

Ouvir / Ver

"Marcha Infernal"
Músico: José Maria Mota Pequicho
Nasceu na Nazaré, a 28 de Fevereiro de 1935. Aprendeu música na Banda Nazarense, aos 7 anos, e começou a tocar trompete aos 15 anos. Formou a Banda do Planalto, depois Banda D. Fuas Roupinho e, actualmente, Filarmónica da Nazaré onde é maestro.
Gravação 26 Janeiro 2012, Museu Dr. Joaquim Manso.

Ler mais "Objeto Mês de Fevereiro 2011" (Marchas e São Brás) e "Objeto Mês de Fevereiro 2010" (Grupo Carnavalesco).

Cabaz de peixe











Cabaz de peixe
Pertenceu a João de Deus Estrelinha,
proprietário da traineira “Estrelinha”
Oferta de Emílio Vasco, 2000
MDJM inv. 2091 Etn.


Cesto utilizado pelas cabazeiras, no transporte de pescado desde a traineira “Estrelinha” até à lota.
A letra “E” pintada a preto identifica o seu proprietário, o pescador João de Deus Estrelinha, assim como as manchas vermelhas (a sua cor) pintadas nas faces mais estreitas. No interior, ainda apresenta vestígios de escamas de peixe.

Ser cabazeira era um dos trabalhos mais árduos para a mulher da Nazaré. A sua função era fazer chegar o pescado do barco à lota.
Para esta actividade, as mulheres inscreviam-se na Capitania do Porto da Nazaré, que lhes atribuía uma cédula com o respectivo número.

As cabazeiras começavam a tomar lugar no areal da praia, logo pela noite, chegando a passar aí grande parte do seu sono, não só para estarem presentes a qualquer hora de chegada das embarcações do mar, mas também para terem vantagem na fila de espera e serem as primeiras a serem chamadas para o transporte de cabazes.
Para a organização do trabalho, havia a “mestra”. Há memória da Rosa Lourenço Antunes, vulgarmente designada por "Rosa da Galeana", e conhecida pelo seu espírito de disciplina e liderança.

O trabalho desenvolvia-se do seguinte modo: quando as embarcações chegavam "à bord' àgua", eram puxadas pelos bois (posteriormente, pelos tractores) para "o topo" (areal). Aí, os "homens da redada" (companheiros do barco com essa função) davam sinal e iniciava-se o transporte do pescado. 
Então as mulheres, sob orientação da “mestra”, em fila indiana, carregavam à cabeça geralmente dois cabazes de cada vez (cada cabaz equivalia a 20 Kg) e, em passo apressado, muitas vezes de corrida, levavam o peixe para a lota. Depois, regressavam novamente, tomando o último lugar da fila, para novo transporte. Quantos mais cabazes transportassem, mais ganhavam.
A cada cabaz transportado correspondia uma senha identificativa da embarcação, do respectivo proprietário, com indicação da quantia referente à condução do peixe.
O pagamento às cabazeiras era efectuado na taberna indicada pelo proprietário da embarcação. Por sua vez, a “mestra” não tinha uma remuneração definida e nunca acartava. A sua compensação económica resultava do transporte de cabazes que cada cabazeira, de tantos em tantos cabazes, tinha que carregar para ela. 
Os cabazes eram feitos de compridas e largas tiras entrelaçadas, com cerca de 38x30x27cm, e duas asas feitas de corda que se ligavam ao interior do cabaz através de grossos nós. Tinham pintadas as letras iniciais da embarcação a que pertenciam.

Este sistema de condução de pescado para a lota deu lugar ao transporte em carrinhas. Actualmente, segue-se o sistema moderno da descarga do peixe no Porto de Abrigo da Nazaré e respectiva venda na lota.

O trabalho das cabazeiras inspirou vários artistas, não só na fotografia, como Artur Pastor, como também na literatura, como Alves Redol (ler).

Celeste Vasco da Silva é uma das muitas cabazeiras que animavam o areal da Praia da Nazaré até aos anos 1970, e cujo nome encontramos entre os registos da Capitania, na época obrigatório. As suas memórias estão também patentes nesta exposição do Objecto do Mês, no Museu Dr. Joaquim Manso.

Visite-nos!

Ler:

Toneira











Toneira, século XX
Chumbo
Oferta de António Figueira Sales
MDJM inv. 611 Etn


A toneira é um artefacto de pesca, localmente conhecido por “gigue”, e destina-se à pesca da lula. Faz parte dos chamados “aparelhos menores”, utilizados sobretudo numa economia de subsistência.
É feita em chumbo, com um comprimento variável entre os 3 e 9 cm. De forma cónica, na extremidade inferior apresenta alfinetes fixados por linha fina ou tiras de trapo, dispostos radialmente e com os bicos virados para cima. Na outra extremidade, ligeiramente achatada, há um orifício onde se prende a linha (actualmente uma bobine de nylon), que é manipulada pela mão do pescador, o que justifica a designação popular de “pesca ao dedo”.
Este processo de pesca integra-se nas chamadas “amostras”, em que se não utiliza isco ou engodo: a atracção do pescado faz-se através da cor, movimento e brilho que emanam da forma e  matéria-prima utilizada nestes aparelhos. 
As toneiras eram feitas pelos pescadores com moldes próprios. Actualmente, as “amostras” são adquiridas em lojas da especialidade, apresentam formas variadas, incluindo peixes de cores garridas, muitas vezes enfeitadas com acessórios que completam a estrutura, tornando-a mais atraente para o pescado.  
A “pesca ao dedo” realizava-se na enseada da Nazaré, durante o tempo quente – Primavera e Verão. Praticava-se quer  durante um lanço de pesca ao candil, enquanto se aguardava que as redes fossem aladas (o produto resultante revertia a favor do próprio pescador) ou, de forma propositada, a bordo de pequenas embarcações, através de um movimento de vaivém, de um “zagaiar” ou “zigzaguear”, que o pescador imprime à linha a fim de capturar as lulas.
Embora de significado individual, ainda hoje se pratica este tipo de pesca, utilizando-se, no entanto, meios mais modernos.

Zagaia








Zagaia
Chumbo, século XX
Oferta de Maria Antónia Quinzico, 2009
MDJM inv. 1974 Etn.


A pesca do bacalhau faz parte das “história de vida” de muitos pescadores da Nazaré, quando a chamada “Frota Branca” enchia os mares do Norte e as partidas e chegadas aos portos portugueses eram momentos de grande emoção, vividos entre lágrimas e sorrisos, com a presença de muitos familiares. Normalmente, após meses nas longínquas campanhas, o regresso dos “bacalhoeiros” acontecia em Outubro e, na Nazaré, assinalava-se este acontecimento com o “Baile dos Bacalhoeiros”, a 5 de Outubro. 
Lembrando esse tempo, durante o mês de Outubro, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca como objecto a pequena zagaia, aparelho de pesca utilizado na captura do bacalhau.

Na longa viagem, os pescadores iam preparando os aparelhos de fundo, as zagaias, os dóris (pequenos botes individuais) e todo o equipamento necessário à faina. As zagaias eram compostas por um pedaço de chumbo em forma de peixe, a que se ligava uma “seda” (fio de nylon) através de um olhal e, na outra extremidade, um anzol duplo. Os pescadores construíam as suas próprias zagaias, utilizando um molde para o chumbo derretido, onde se introduzia o anzol já comprado. A diferença entre as zagaias artesanais e as mais recentes (de compra) verifica-se na largura do chumbo e no olhal.
As zagaias eram utilizadas nos dóris, em situações especiais, como complemento e/ou substituição do aparelho de fundo. A técnica utilizada neste processo consiste em atrair o bacalhau, ou qualquer outro pescado, através do brilho do chumbo que lhe é conferido por raspagem de canivete. O pescador “zagaiava”, imprimindo um movimento de vaivém. Empregava-se quando o bacalhau andava “alvorado”, a “meia água”, “com comedia” (à procura de comida) e, vendo a zagaia, atirava-se, ficando capturado. Por outro lado, o aparelho de fundo, constituído por várias linhas e anzóis, era usado quando o pescado andava em águas mais profundas e era iscado com lulas.

Esta zagaia pertenceu a António Borges Barqueiro, nascido na Nazaré a 12 de Março de 1928, que a usou quando “andou ao bacalhau” no “Vimieiro” e no “Maria das Flores”, há cerca de 45 anos.


Nota: Informação recolhida a partir de entrevista a Rogério Barros Quinzico (Nazaré, 1954), que foi pescador do bacalhau durante cerca de 10 anos. Entrevista realizada em 15 de Setembro 2011, por Cecília Nunes e Deolinda Maria Brites.

"Lâmina" de Nossa Senhora da Nazaré













Lâmina de Nossa Senhora da Nazaré
Nazaré, meados do séc. XX
MDJM inv. 1276 Etn.


O culto a Nossa Senhora da Nazaré cedo originou trabalhos populares que simultaneamente cumpriam uma função votiva e recordação da vinda do peregrino ao Santuário localizado no Sítio.

Entre os “bens de salvação, de protecção dos devotos e de memorização do culto” (Pedro Penteado, 1998), encontramos as populares “lâminas”, “lâmedas” ou “chapas”, onde o colorido da decoração naïf se alia ao sagrado. Por norma são de pequena dimensão, pequenos quadros rectangulares prontos a serem pendurados na parede ou em pequeno oratório.

São compostas por uma gravura (“registo de santo” do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho), envolta por pormenores florais ou outros elementos alusivos ao mar e à pesca, pintados a anilina ou realizados com colagens de papéis coloridos e tecido. Protege a composição, uma “caixa de vidro” com moldura mais ou menos elaborada ou um simples vidro delimitado por filete colorido.

Na primeira metade do século XX eram vários os “santeiros” que se dedicavam a este trabalho, chegando à memória os nomes de Rufina, Nazaré do Piló, mãe e filhas Diva, Laura e Isabel Pequicho, as irmãs Donatila e Josefina Teixeira, os irmãos Soledade, José Maria e Irene Pequicho, o casal Damião e Maria da Praia e o casal Fernando Peixoto e Virgínia Teixeira Peixoto. Vendiam as “lâminas” sobretudo durante as Festas de Nossa Senhora da Nazaré (8 de Setembro), montando as suas tendas junto ao Santuário. Noutras alturas do ano, era frequente venderem em Fátima, Bombarral, Peniche (Festas de Nossa Senhora dos Remédios), entre outros locais.

A partir dos anos 1950, com o crescimento da venda das “bonecas” artesanais, a produção das “lâminas” foi diminuindo significativamente até ao seu total desaparecimento.

O Museu Dr. Joaquim Manso possui uma colecção significativa destes trabalhos populares que, pela sua fragilidade, estão habitualmente em reserva. Durante o mês de Setembro – mês das “Festas” – parte da colecção está patente ao público como “Objecto do Mês”.