Toneira











Toneira, século XX
Chumbo
Oferta de António Figueira Sales
MDJM inv. 611 Etn


A toneira é um artefacto de pesca, localmente conhecido por “gigue”, e destina-se à pesca da lula. Faz parte dos chamados “aparelhos menores”, utilizados sobretudo numa economia de subsistência.
É feita em chumbo, com um comprimento variável entre os 3 e 9 cm. De forma cónica, na extremidade inferior apresenta alfinetes fixados por linha fina ou tiras de trapo, dispostos radialmente e com os bicos virados para cima. Na outra extremidade, ligeiramente achatada, há um orifício onde se prende a linha (actualmente uma bobine de nylon), que é manipulada pela mão do pescador, o que justifica a designação popular de “pesca ao dedo”.
Este processo de pesca integra-se nas chamadas “amostras”, em que se não utiliza isco ou engodo: a atracção do pescado faz-se através da cor, movimento e brilho que emanam da forma e  matéria-prima utilizada nestes aparelhos. 
As toneiras eram feitas pelos pescadores com moldes próprios. Actualmente, as “amostras” são adquiridas em lojas da especialidade, apresentam formas variadas, incluindo peixes de cores garridas, muitas vezes enfeitadas com acessórios que completam a estrutura, tornando-a mais atraente para o pescado.  
A “pesca ao dedo” realizava-se na enseada da Nazaré, durante o tempo quente – Primavera e Verão. Praticava-se quer  durante um lanço de pesca ao candil, enquanto se aguardava que as redes fossem aladas (o produto resultante revertia a favor do próprio pescador) ou, de forma propositada, a bordo de pequenas embarcações, através de um movimento de vaivém, de um “zagaiar” ou “zigzaguear”, que o pescador imprime à linha a fim de capturar as lulas.
Embora de significado individual, ainda hoje se pratica este tipo de pesca, utilizando-se, no entanto, meios mais modernos.

Zagaia








Zagaia
Chumbo, século XX
Oferta de Maria Antónia Quinzico, 2009
MDJM inv. 1974 Etn.


A pesca do bacalhau faz parte das “história de vida” de muitos pescadores da Nazaré, quando a chamada “Frota Branca” enchia os mares do Norte e as partidas e chegadas aos portos portugueses eram momentos de grande emoção, vividos entre lágrimas e sorrisos, com a presença de muitos familiares. Normalmente, após meses nas longínquas campanhas, o regresso dos “bacalhoeiros” acontecia em Outubro e, na Nazaré, assinalava-se este acontecimento com o “Baile dos Bacalhoeiros”, a 5 de Outubro. 
Lembrando esse tempo, durante o mês de Outubro, o Museu Dr. Joaquim Manso destaca como objecto a pequena zagaia, aparelho de pesca utilizado na captura do bacalhau.

Na longa viagem, os pescadores iam preparando os aparelhos de fundo, as zagaias, os dóris (pequenos botes individuais) e todo o equipamento necessário à faina. As zagaias eram compostas por um pedaço de chumbo em forma de peixe, a que se ligava uma “seda” (fio de nylon) através de um olhal e, na outra extremidade, um anzol duplo. Os pescadores construíam as suas próprias zagaias, utilizando um molde para o chumbo derretido, onde se introduzia o anzol já comprado. A diferença entre as zagaias artesanais e as mais recentes (de compra) verifica-se na largura do chumbo e no olhal.
As zagaias eram utilizadas nos dóris, em situações especiais, como complemento e/ou substituição do aparelho de fundo. A técnica utilizada neste processo consiste em atrair o bacalhau, ou qualquer outro pescado, através do brilho do chumbo que lhe é conferido por raspagem de canivete. O pescador “zagaiava”, imprimindo um movimento de vaivém. Empregava-se quando o bacalhau andava “alvorado”, a “meia água”, “com comedia” (à procura de comida) e, vendo a zagaia, atirava-se, ficando capturado. Por outro lado, o aparelho de fundo, constituído por várias linhas e anzóis, era usado quando o pescado andava em águas mais profundas e era iscado com lulas.

Esta zagaia pertenceu a António Borges Barqueiro, nascido na Nazaré a 12 de Março de 1928, que a usou quando “andou ao bacalhau” no “Vimieiro” e no “Maria das Flores”, há cerca de 45 anos.


Nota: Informação recolhida a partir de entrevista a Rogério Barros Quinzico (Nazaré, 1954), que foi pescador do bacalhau durante cerca de 10 anos. Entrevista realizada em 15 de Setembro 2011, por Cecília Nunes e Deolinda Maria Brites.

"Lâmina" de Nossa Senhora da Nazaré













Lâmina de Nossa Senhora da Nazaré
Nazaré, meados do séc. XX
MDJM inv. 1276 Etn.


O culto a Nossa Senhora da Nazaré cedo originou trabalhos populares que simultaneamente cumpriam uma função votiva e recordação da vinda do peregrino ao Santuário localizado no Sítio.

Entre os “bens de salvação, de protecção dos devotos e de memorização do culto” (Pedro Penteado, 1998), encontramos as populares “lâminas”, “lâmedas” ou “chapas”, onde o colorido da decoração naïf se alia ao sagrado. Por norma são de pequena dimensão, pequenos quadros rectangulares prontos a serem pendurados na parede ou em pequeno oratório.

São compostas por uma gravura (“registo de santo” do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho), envolta por pormenores florais ou outros elementos alusivos ao mar e à pesca, pintados a anilina ou realizados com colagens de papéis coloridos e tecido. Protege a composição, uma “caixa de vidro” com moldura mais ou menos elaborada ou um simples vidro delimitado por filete colorido.

Na primeira metade do século XX eram vários os “santeiros” que se dedicavam a este trabalho, chegando à memória os nomes de Rufina, Nazaré do Piló, mãe e filhas Diva, Laura e Isabel Pequicho, as irmãs Donatila e Josefina Teixeira, os irmãos Soledade, José Maria e Irene Pequicho, o casal Damião e Maria da Praia e o casal Fernando Peixoto e Virgínia Teixeira Peixoto. Vendiam as “lâminas” sobretudo durante as Festas de Nossa Senhora da Nazaré (8 de Setembro), montando as suas tendas junto ao Santuário. Noutras alturas do ano, era frequente venderem em Fátima, Bombarral, Peniche (Festas de Nossa Senhora dos Remédios), entre outros locais.

A partir dos anos 1950, com o crescimento da venda das “bonecas” artesanais, a produção das “lâminas” foi diminuindo significativamente até ao seu total desaparecimento.

O Museu Dr. Joaquim Manso possui uma colecção significativa destes trabalhos populares que, pela sua fragilidade, estão habitualmente em reserva. Durante o mês de Setembro – mês das “Festas” – parte da colecção está patente ao público como “Objecto do Mês”.

Medidas de pevides

Medidas
madeira
Nazaré, meados séc. XX
MDJM inv. 1256 e 1782






As “medidas” são recipientes quadrangulares utilizados na venda de cereais, sementes ou legumes secos. Cada “medida”, de dimensões diferenciadas, corresponde a determinado peso e preço do produto.


No âmbito dos estágios realizados no Museu Dr. Joaquim Manso durante o mês de Junho, três alunas da Escola Profissional da Nazaré, Ana Rita Esperança e Fabiana Cruz (do Curso Técnico de Organização de Eventos) com a ajuda da Iara Valnove (do Curso Técnico de Turismo), dedicaram-se ao estudo da actividade comercial das conhecidas "Pevideiras" ou "Senhoras das Pevides" do Terreiro, junto ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré e do Museu.
Entrevistaram Albertina Polaco, Carolina Figueira, Filomena Saldanha, Isabel Anastácio Matias, Maria da Conceição Canhoto e Maria Luísa e concluíram que, entre os produtos mais vendidos, se contam os tremoços e as pevides, assim como os percebes, comercializados actualmente por sete mulheres de diversas idades. O pinhão é o artigo mais caro e, entre os mais baratos, destacam-se os tremoços.
A venda efectua-se recorrendo às “medidas”, de várias capacidades, que são objecto regular de fiscalização. À Confraria de Nossa Senhora da Nazaré pertence a responsabilidade de controlar e conceder os locais de venda.

Foquim

Foquim
Madeira

Doador António Meca da Felismina

MDJM inv. 359 Etn.


“Os foquins ainda levam de comer, mas ninguém se lembra de os abrir (…) Não, mais nenhum sente fome. Aquele punho metido ali na barriga é outra coisa. Todos sabem o que dá o Mar, mas nunca estiveram nas suas mãos com um vento rijo a empolar os vagalhões que os acometem sem descanso”.

Alves Redol, Uma fenda na Muralha (1969)


O foquim era um recipiente em madeira utilizado pelos pescadores para levarem as suas refeições durante a faina do mar. De forma cilíndrica, possui uma tampa com asa para ser facilmente transportado.

Cada pescador possuía o seu foquim mas, como a maioria não sabia ler, para o identificar, pintava símbolos e decorações mais ou menos ingénuas, onde sobressai o gosto pelas cores vivas. Se alguns se limitam a manchas coloridas, que correspondem às cores dos seus proprietários, outros foquins ostentam motivos temáticos que os tornam em verdadeiras obras de arte popular, muito para além do seu conteúdo funcional. É o caso do foquim (inv. 548) que pertenceu ao nazareno Manuel Meca Bombas, também exposto neste Museu. Exteriormente, apresenta peixes cinzentos e azuis, mas o seu principal interesse reside na decoração da tampa com o Milagre de Nossa Senhora da Nazaré. Na parte interior da mesma, inclui-se a representação da Aparição da Nossa Senhora de Fátima aos Pastorinhos, o que comprova a grande religiosidade da comunidade piscatória, tão sujeita aos naufrágios e desventuras do mar, que é simultaneamente fonte de alimento e alegrias, assim como de dor e morte.


De objecto essencialmente funcional e utilitário, eterno “companheiro do pescador quando vai ou regressa do mar”, o foquim acabou por se tornar num adereço decorativo do traje tradicional do pescador, o que motivou a promoção de vários concursos anuais nas décadas de 1950 e 1960, nomeadamente no mês de Abril, na altura da Páscoa (“Avril au Portugal”).

Hoje, ainda se encontra disponível no artesanato local, sobretudo sob a forma de miniaturas ornamentais, que evocam turisticamente o passado piscatório da Nazaré e do litoral português.


Em Abril de 2011, através do projecto “Do foquim à mochila”, o Museu Dr. Joaquim Manso, em parceria com o Agrupamento de Escolas Amadeu Gaudêncio, a ACISN e a ANAZART, revive a tradição cultural daqueles concursos e as memórias a eles associadas, mas agora actualizando a sua componente educativa, visando nomeadamente sensibilizar as camadas mais jovens da população para o seu próprio papel no estudo e conhecimento dos seus valores identitários, numa postura simultaneamente crítica e criativa.


“Concurso dos Foquins O nazareno quer em si próprio – no trajo – quer nos instrumentos da sua actividade – do barco às cabaças e odres – gosta do jogo das cores vivas. O foquim não escapa à regra. Ei-lo, como mais um elemento colorido, do conjunto, pendente do braço pela asa ou na mão, todos sensivelmente iguais na forma, mas todos também ostentando diferente ornamentação pintada, companheiro do pescador que vai para a pesca ou que dela regressa, graças a Deus. Útil funcionalmente – nele se leva que comer durante a faina – é incontestavelmente também mais um elemento decorativo do trajar. Porque lhe corresponde de certo modo uma expressão muito evidente do interesse decorativo dos pescadores nazarenos, mais uma vez é objecto de um concurso. Com ele se pretende estimular a manutenção de tão colorido uso e se permite ao mesmo tempo também a apreciação de tão variada e engenhosa ornamentação”.

In Avril au Portugal – Nazaré – Festas da Páscoa, 1964

Seminho

Seminho
Cortiça
Doação de Álvaro Águeda, 1976
MDJM inv. 734 Etn.









Em Março, associado à comemoração do Dia Mundial da Floresta, o Museu Dr. Joaquim Manso evidencia a utilização de materiais oriundos da natureza na pesca tradicional, destacando o seminho.

Ao longo da costa portuguesa é muito utilizado este tipo de flutuador. Trata-se de uma bóia, constituída por cortiças enfiadas umas nas outras através de fio de sisal ou nylon, e que se destina a aliviar o peso dos cabos das redes, sobretudo da arte xávega, onde complementa esta arte a par dos odres e dos ferros.

De acordo com os vários regionalismos, é também denominado de semino ou smin.

Marcha de Carnaval 1978


Marcha de Carnaval de 1978 do “Salão Mar-Alto”
Letra de Américo Matias e João H. Pires
Música de Aníbal Freire
MDJM

Uma das valências do Carnaval nazareno assenta no aspecto musical. As “marchas” são disso exemplo e, por vezes, em tom jocoso, referem vários aspectos da vida social local.
A letra desta marcha evoca a celebração de S. Brás a 3 de Fevereiro que, na Nazaré, tem lugar no monte do mesmo nome e, independentemente de calendários, é um prenúncio do tempo de Carnaval que se aproxima.
A devoção popular inclui uma romaria onde aparecem os primeiros “ensaiados” (mascarados). Tempos houve em que, na pequena ermida, além do São Brás, se venerava Nossa Senhora das Candeias (celebrada a 2 de Fevereiro) e São Bartolomeu (outra designação nazarena para o mesmo monte, onde, segundo a lenda, Rodrigo - o último rei dos Visigodos - se refugiara depois de ter escondido a imagem de Nossa Senhora da Nazaré numa gruta no Sítio).
É uma obrigação subir ao monte, fazer as preces e oferendas na capela. Entre elas, há referências a uma telha, como pedido de casamento das raparigas solteiras ou, posteriormente, como simples contributo para o melhoramento do telhado do edifício.
Depois, no pinhal em redor do monte, é tempo de folia. Entre fogueiras, preparam-se as “sardinhas salgadas, chouriços e morcelas assadas”, sempre tudo muito bem acompanhado de bastante vinho.
Produtos característicos deste dia eram e continuam a ser “frutos secos”, pinhões, passas, tremoços, pevides e “passarolas” …
Esta vivência de folia é animada por cantigas e danças, onde não faltam os grupos “ensaiados”, com a sua irreverência e espontaneidade. Este “ritual” foi-se modernizando e acrescentando outros pormenores de diversão, como música “ao vivo” e apresentação dos “reis de Carnaval”.

Em exposição, a letra desta marcha é acompanhada por fotografias da colecção do Museu Dr. Joaquim Manso e fotografias cedidas por Nazaré Ova, que permitem ilustrar as festas de São Brás nos anos 1960 e na actualidade. As fotografias são comentadas através de entrevistas realizadas a Nazaré Ova e à sua filha, Polcínia Ova, rainha do Carnaval da Nazaré 2010.

Consulte o desdobrável sobre o Objecto do Mês aqui.

Rua da Nazaré, de Abílio

Abílio de Mattos e Silva (1908-1985)
Rua da Nazaré, 1943
Guache sobre papel
MDJM inv. 124 Pint.

Abílio Leal de Mattos e Silva nasceu no Sardoal em 1 de Abril de 1908. Concluídos os estudos liceais em Coimbra, iniciou o curso de Direito em Lisboa acabando, porém, por optar pela função pública.
Fixou-se na Nazaré em 1931, aqui permanecendo até 1936. Datam deste período as obras mais antigas; definem a fase em que a sua pintura começa a manifestar-se de forma mais assídua, ao que não será estranho o estimulante convívio com os pintores portugueses e estrangeiros que com ele partilhavam a forte sedução ambiental da vila.
A pintura “Rua da Nazaré” insere-se nesta temática. Abílio realizou inúmeros desenhos, guaches e óleos com motivos atentos às pessoas e vivências, mas frequentemente enquadrados no casario desta vila piscatória. Deixou também um exaustivo estudo sobre o Traje Tradicional da Nazaré, acompanhado por ilustrações pormenorizadas, que fazem parte do espólio do Museu Dr. Joaquim Manso


Nazaré terá sido o princípio, Óbidos, a continuação. Com efeito, a actividade de Abílio prolonga-se durante as férias no velho burgo, cuja paisagem desenha e pinta durante muitos anos, tendo-nos ficado dessa actividade uma vasta e significativa produção.

Em Lisboa, onde passa a residir em 1936, participa em exposições colectivas e colabora na revista "Presença" e noutras revistas e publicações oficiais. Como grafista, executa numerosos trabalhos para organismos de Estado.
Com a peça "Tá-Mar", de Alfredo Cortez, inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro declamado e ligeiro.
No Ministério da Economia desenvolve intensa actividade como ilustrador e designer, tendo sido condecorado pela acção desenvolvida em exposições organizadas no estrangeiro. É, cumulativamente, director de cena do Teatro S. Carlos, onde levou a efeito algumas das suas mais importantes realizações cénicas.

Obras Publicadas: "Óbidos, vila antiga de Portugal" (desenho), "O Trajo da Nazaré", "30 Anos de Teatro" (catálogo). Quando faleceu, tinha em preparação um álbum sobre Óbidos.

Cerco Republicano


Cerco Republicano
Galeão e duas barcas auxiliares (miniatura), 1980
Madeira
Fabricante: Policarpo Vicente Isaac
MDJM inv. 1091 Etn.

A miniatura reproduz a embarcação original N 672 G, cuja data de registo é 23 Setembro 1913. Era propriedade da “Sociedade Cerco Liberal” e destinava-se a serviço de pesca com “cerco americano”.

Tinha de comp. 10 m; boca 3,30 m; pontal 1,10 m e T.B. 8,712 t.
A embarcação original foi abatida em 1929.

No período que antecedeu o 5 de Outubro de 1910 e durante a I República, alguns barcos registados na Capitania do Porto da Nazaré revelam a ideologia republicana dos seus proprietários, de que é exemplo este galeão que pertencia ao “Cerco Liberal”, também conhecido por “Cerco Republicano” ou “Papa -Charutos”:
Duarte Pacheco – Batel das armações valencianas N 474 V, registado a 14 Maio 1906. Propriedade “Rosa e Comandita”. Em 21 Maio 1912, passou a pertencer a Cândido Rodrigues e C.ª (filhos).
Bernardino Machado – Barca de cerco americano N 503 G, registada a 21 Setembro 1908. Propriedade de “Sociedade de Cerco Americano Igualdade” – Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
Guerra Junqueiro – Barca de cerco americano N 504 G, registada a 21 Setembro 1908, ao serviço do Cerco Americano “Igualdade” – Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
António José d’Almeida – Barca de cerco americano N 513 G, registada a 15 Novembro 1908, o serviço do Cerco Americano de Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
Pinheiro Chagas – Batel das armações valencianas N 696 V, registado a 18 Maio 1914. Propriedade “Parceria Fraternidade”.
República – Galeão de cerco americano N 711 G, registado a 17 Setembro 1914. Propriedade da Firma Santos Amaral e C.ª. Destina-se ao serviço de pesca com o cerco americano “Alexandre”.

No ano de 1910, registaram-se na Capitania do Porto da Nazaré: 19 barcos de Arte Xávega, 10 batéis de pesca da lagosta, 5 embarcações de cerco americano, 2 embarcações de Armação Valenciana e 1 embarcação de Armações Redondas.

Primeira Comissão Republicana da Nazaré, 1907

Álvaro Laborinho (1879-1970)
Grupo da Primeira Comissão Municipal Republicana da Nazaré, 1907
MDJM inv. 915 Fot.



Em momento de celebração do Centenário da Implantação da República, o Museu Dr. Joaquim Manso evoca esta época revolucionária na Nazaré.
Ainda durante a Monarquia, várias figuras da Nazaré aderiram ao crescente movimento republicano, desenvolvendo numerosas acções no sentido da divulgação dos novos ideais e da possível implantação da República.
Fizeram-se os primeiros comícios e conferências, trazendo à localidade alguns nomes que ainda perduram na memória colectiva, como Ramada Curto, conhecido advogado, Pires de Campos, Afonso Ferreira, Lopes Pelago e o general Estrela de Leiria.
Dos locais distinguiram-se, entre outros, António Gomes Ascenso, presidente da Comissão Republicana da Nazaré, José Pedro, Álvaro Laborinho, Joaquim Brilhante, Albertino Victorino Laranjo e Teixeira Freire.
A Comissão Administrativa em 1912 era composta por João Duarte Vieira, farmacêutico; Manuel Ferreira Canadas, comerciante; Joaquim Baptista Laranjo; comerciante; Fortunato da Silva Pimpão; comerciante; Armando Laborinho, comerciante e João de Sousa Júnior, também comerciante.

A primeira bandeira republicana na Nazaré regista-se em Dezembro de 1910, por iniciativa e oferta de Alfredo Santos, sócio da fábrica de conservas “Alfredo Santos & Bravo”. A cerimónia teve lugar na própria fábrica, onde foi içada a nova bandeira portuguesa, verde e rubra.

Após insistentes pedidos aos órgãos de governo competentes e que remontam ainda ao tempo da Monarquia, em 1912, por decreto de Manuel de Arriaga, o concelho da Pederneira passa a denominar-se “concelho da Nazaré”. Manuel de Arriaga (1840-1917) foi Presidente da República Portuguesa, entre 1911 a 1915, e também cultor da poesia e da literatura. Desde fins do século XIX, Manuel de Arriaga era amante da Nazaré, aqui passando férias e dedicando-lhe alguns belos poemas. A Nazaré, por sua vez, recorda Manuel de Arriaga na sua toponímia – Praça Manuel de Arriaga.

Com a República, esta vila piscatória conhece alguns melhoramentos sócio-culturais, nomeadamente na educação, no teatro e na organização de actividades ligadas à cultura. Celebram-se as festas do “Dia da Árvore” e o espírito republicano reflecte-se em vários aspectos do quotidiano piscatório, incluindo nos registos de embarcações, cujas denominações evidenciavam a matriz política dos seus proprietários. Citam-se como exemplo as embarcações “Bernardino Machado”, “Guerra Junqueiro” e “António José d’Almeida” (1908), “Cerco Republicano” (1913), “Pinheiro Chagas” e “República” (1914).

Álvaro Laborinho, fotógrafo amador da Nazaré, foi também um republicano convicto, indo propositadamente a Lisboa para oferecer os seus préstimos a António José de Almeida.
Foi um dos intervenientes na fundação do Centro Republicano Português na Nazaré, sendo bastante participativo em várias actividades políticas e na organização de comícios republicanos.
Com o seu olhar fotográfico, registou assiduamente algumas das figuras e momentos emblemáticos vividos na Nazaré durante a época de implantação da República, como a fotografia seleccionada.


Consulte o dossier República. No âmbito das comemorações do Centenário da República, o Museu Dr. Joaquim Manso seleccionou algumas notícias da imprensa nacional constante do seu Centro de Documentação, onde são referidos acontecimentos ocorridos na Nazaré.
Visite a exposição "A implantação da República e a Nazaré", no Centro Cultural da Nazaré, entre 5 de Outubro e 7 de Novembro. Ler mais.

Praia do Norte











Maria Lucília Moita (1928 -)
Praia do Norte, 1985
Óleo sobre platex
MDJM inv. 100 Pint.


O mar sempre motivou artistas e escritores. Uns remeteram-no para um plano de enquadramento ou cenário de composições variadas. Outros elevaram-no a tema principal das suas obras, numa análise mais ou menos intimista ou numa plena exploração das suas cores, luz e movimentos.


Maria Lucília Moita nasceu em Alcanena, mas reside desde 1954 em Abrantes. Aprendeu a pintar com o Mestre João Reis (1899-1982) e observando a colecção naturalista da casa do seu primo, o coleccionador Dr. Anastácio Gonçalves. No entanto, cedo ultrapassou o registo naturalista para enveredar por um percurso que culminaria nos anos 1980 numa capacidade expressiva mais pessoal, longe das referências iniciais.
O mar surge amiúde nas suas obras, em composições abstractas de tons claros, obtidas pelo uso de raspagem e sobreposição de tintas espessas.

“Praia do Norte” insere-se nesta tendência da autora, evocando a relação entre o movimento incessante das ondas do mar e o areal da Praia do Norte, extensa praia a Norte do Promontório da Nazaré.
Sendo a Praia da Nazaré frequentemente representada, sobretudo pelos seus aspectos etnográficos e piscatórios, a Praia do Norte não logrou o mesmo poder atractivo da classe artística, pelo que esta pintura ganha ainda maior significado para o património museológico.
Foi oferecida por Lucília Moita ao Museu Dr. Joaquim Manso nos primeiros anos da sua abertura, valorizando uma colecção de arte que testemunha a relação do homem com o mar – fonte de vida, de trabalho e de inspiração criadora.

Paneiro



Oferta de José Codinha dos Santos
MDJM inv. 655 Etn.

Tabuleiro rectangular, com fundo de rede delimitado por quatro ripas de madeira. Ao centro e na horizontal, uma outra trave de madeira reforça a estrutura e serve de apoio quando é transportado à cabeça pela mulher da Nazaré.
É utilizado para se colocar o peixe a secar ao sol, depois de amanhado.
Os vários paneiros colocados no areal da praia, lado a lado, e ligeiramente inclinados, formam um conjunto localmente designado por “estindarte”.


A seca de peixe ainda hoje se pratica pelas mulheres da Nazaré, embora o processo se tenha modernizado ao longo do tempo.
Outrora, a actividade de preparação do pescado decorria à beira-mar e utilizava-se a própria água do mar.
Primeiro, amanhava-se o peixe (retirava-se a tripa) numa gamela ou dorna com água do mar. Depois, escalava-se o peixe (abria-se ao meio), com os próprios dedos e procedia-se à sua lavagem também em água do mar, numa outra gamela ou dorna. Era, então, altura do pescado, já preparado, ficar em “moira” (salmoura), durante cerca de uma hora numa outra gamela ou dorna onde à água do mar se acrescentava mais sal. De seguida, era posto a secar no “estindarte” que, primitivamente, era constituído por camadas de junco sobre a areia e, posteriormente, por conjunto de paneiros colocados inclinados, lado a lado.
Mais recentemente, esta prática foi delimitada a uma área regulamentada pela Câmara Municipal e pela Capitania do Porto da Nazaré. Também os meios utilizados neste processo se foram ajustando ao quotidiano actual e as gamelas e dornas deram lugar às vulgares bacias; a água do mar foi substituída pela água potável a que, quando necessário, se acrescenta sal para a “moira” (salmoura). Neste preparado, o pescado permanece cerca de hora e meia (mais tempo do que a água do mar exigia).
Em tempo de sol, o peixe fica a secar durante dois dias. Mas pode ficar durante cerca de uma semana, quando não há sol.

Recanto da Nazaré

Mamia Roque Gameiro (1901-1996)
Recanto da Nazaré, 1925
Óleo sobre tela
MDJM inv. 68 Pint.





A pintura ilustra um recanto urbano da Nazaré, através do pincel da filha do célebre aguarelista Alfredo Roque Gameiro. Além do Promontório, observa-se o “paredão” e um conjunto arquitectónico típico, junto da Igreja de Santo António. Algumas figuras humanas completam o quadro, movimentando-se pela rua ou representando costumes tradicionais como o sentar-se nos “arrebates” (soleiras) da porta.
A particularidade destas pinturas de início do século XX reside no seu aspecto documental, escolhendo vivências ou contextos paisagísticos entretanto alterados. Mas, ao seu valor temático, alia-se o facto da Nazaré ter constituído motivo de atracção para uma vasta comunidade artística, que aqui pôde desenvolver os seus gostos e experimentar técnicas, umas de registo mais naturalista e ingénuo, outras mais críticas ou modernistas.

Mamia Roque Gameiro (Amadora, 1901 – Lisboa, 1996), de seu nome Maria Emília Roque Gameiro, nasceu na Amadora, numa família ligada à arte.
Filha do aguarelista Alfredo Roque Gameiro (Minde, 1864 - Lisboa, 1935), Mamia seguiu as pisadas do pai, tal como os restantes irmãos, embora cada um tenha definindo um percurso individual.
Estudou com a pintora Mily Possoz (1888-1967) e trabalhou a aguarela, guache e óleo. A Nazaré foi um dos seus temas, comprovando a importância desta vila piscatória como cenário de inspiração para os artistas portugueses e estrangeiros.
Em 1919, expôs na Sociedade Nacional de Belas-Artes e, em 1923, realizou a sua primeira exposição individual. Distinguiu-se também como ilustradora de livros infantis e de publicações periódicas.
É de realçar o seu trabalho como miniaturista, nomeadamente nas representações de histologia, no IPO, entre 1935 e 1940.
Casou com o pintor Jaime Martins Barata (1899-1970), em 1926.

Dia de São Pedro no rio Alcôa





Álvaro Laborinho (1879-1970)
Dia de São Pedro no rio Alcôa, 1928 (29 Junho)
MDJM inv. 1381 Fot.


Junho é tempo dos Santos Populares.

Na Nazaré, terra de festas e tradições, era hábito festejar os dias de São João e de São Pedro com passeios de barco na foz do rio Alcôa, fazendo-se piqueniques, fogueiras e marchas alusivas.

Esta fotografia de Álvaro Laborinho documenta-nos um desses momentos, num espaço actualmente ocupado pelo Porto de Abrigo da Nazaré.

Guião do Círio de Nossa Senhora da Vitória











Oferta de Lídio Maurício, Juiz em 1959
Guião realizado para o Círio de 1959, por Irene Maurício

(costureira, com quem Lídio Maurício viria a casar e que foi Juíza no mesmo ano)


Anualmente, na Quinta-Feira de Ascensão (este ano, a 13 de Maio), tem lugar o ancestral Círio de Nossa Senhora da Vitória, que parte do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré em direcção à pequena Capela de Nossa Senhora da Vitória, em Paredes.

Na Nazaré, a paisagem, a cultura do mar e as tradições religiosas fundem-se para gerar um palco único de dinamização turística. Através dos séculos, esta manifestação de fé vem mobilizando as gentes locais para uma experiência cumpridora de um rigoroso ritual, onde a devoção serve de pretexto para a festa e o convívio popular.

Única que parte da Nazaré, esta é uma caminhada colectiva, organizada de juiz em juiz, para prestar o reconhecimento pela protecção sagrada aos “homens do mar”. O colorido dos trajes, a imponência dos cavalos, o ritmo da música, a genuinidade das loas, os acampamentos, os bailes e almoços no areal, transformam o Círio de Nossa Senhora da Vitória num dos maiores e mais pitorescos espectáculos da cultura nazarena.


Objecto oferecido ao Museu Dr. Joaquim Manso na sequência da exposição "Da Nazaré à Vitória. Uma romagem de festa e devoação", realizada em Maio de 2009.

Costal







MDJM inv. 971 Etn.

Recipiente feito de verga entretecida, utilizado tradicionalmente pela mulher da Nazaré no transporte de pescado. Tem as iniciais “V.H.”, referentes ao nome da proprietária, Virgínia Hilário.

Integra-se na mostra “Nazaré no feminino”, iniciada em Março e que documenta algumas vivências e actividades da mulher nazarena ao longo dos tempos, através da fotografia e da literatura.

Algibeira


MDJM inv. 1852 Etn.

Acessório do traje feminino tradicional da Nazaré, localmente denominado “alzebêra” e confeccionado com retalhos de diferentes tipos de tecido (escocês, castorina, …).
Trata-se de uma bolsa que cinge à cintura da mulher por atilhos (um de cada lado). De corte arredondado, apresenta duas entradas na parte da frente e uma na posterior, que fecham com botão. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido contrastante. Em situações de luto, também a algibeira usada é de cores escuras ou totalmente preta.


A algibeira tem um carácter verdadeiramente funcional, sendo usada para trazer o dinheiro e outros haveres ou “papéis de valor”, muitas vezes acompanhados por um “breve”, amuleto ou relíquia que, segundo a superstição popular e a crença religiosa, era uma forma de protecção.
Ainda hoje é usada diariamente pela mulher da Nazaré, sobretudo, pelas mais idosas que envergam o traje tradicional, resguardada sob a “saia de cima”, sempre do lado direito, e fixada à “saia de baixo” por um alfinete de dama.

Veja mais sobre o projecto "Conversas de Algibeira", entre o Museu Dr. Joaquim Manso e a Universidade Sénior da Nazaré.




Grupo Carnavalesco

Álvaro Laborinho (1879-1970)
Grupo Carnavalesco, 1907
MDJM Inv. 861 Fot.






Na Nazaré, o mês de Fevereiro é indissociável do Carnaval.

Esta fotografia lembra esta “festa” vivida intensamente pela população da Nazaré. As máscaras e os disfarces são um dos meios utilizados para extravasar a euforia que anima o tempo carnavalesco. Todos podem ser o que quiserem!

Os primeiros sinais desta festa cíclica surgem durante as festividades em honra de Santo Amaro (Alfeizerão, 15 de Janeiro), onde já participam grupos de nazarenos “ensaiados” (mascarados).
No dia de S. Brás (3 de Fevereiro), em romaria ao Santo do mesmo nome, a população desloca-se ao Monte de S. Bartolomeu, também conhecido por Monte de S. Brás e, aí, acendem-se fogueiras, assam-se chouriços, organizam-se almoços, sobe-se à capelinha e, num espírito de folia, vive-se uma “festa” onde o profano prevalece sobre o sagrado.


No tempo seguinte, fazem-se os preparativos para festejar o “Santo Entrudo”: escrevem-se músicas, letras e “cegadas” cheias de ironia, humor e sentido crítico; escolhem-se fantasias e trajos; estudam-se coreografias; constroem-se carros alegóricos, enfeitam-se as salas de baile das várias associações recreativas e têm lugar os primeiros bailes de máscaras.

Chega o Carnaval. Foliões e ensaiados aglomeram-se nas ruas da Nazaré. Ao domingo, ruidosas bandas infernais a todos acordam; carros alegóricos, bandas, marchas, grupos e ranchos carnavalescos desfilam em cortejo pelas ruas da vila. Animam-se as gentes. Enchem-se as salas de baile, dança-se, canta-se, brinca-se. Quebram-se regras e normas. Invertem-se valores. Todos podem ser o que quiserem …
A meio da noite, é a vez das “cegadas” se exibirem nos bailes, ridicularizando, de forma mordaz, algumas situações socio-políticas da localidade.

Na tarde de Quarta-feira de Cinzas, por entre queixas, choradeiras e zombarias, faz-se, em simbólica cerimónia fúnebre, o “Enterro do Santo Entrudo”, que consiste no “incendiar” de um boneco no areal da praia ou, se esta iniciativa decorrer no Sítio, o “boneco em chamas” é atirado do Suberco.
É também neste dia que se assiste ao último baile, ouvem-se as “deixas”, que são críticas burlescas aos acontecimentos do Carnaval que termina.

E assim se vive o Carnaval nesta terra de pescadores. Ao longo do tempo, foram-se registando transformações e adaptações, algumas brincadeiras como as “caqueiradas” e o “talim-talão” foram sendo substituídos ou esquecidas; nas bandas infernais, as tampas, panelas e tachos deram lugar às tarolas e pandeiretas, …
No entanto, ontem como hoje, o Carnaval vive-se “animado, folião e de larga expansão de alegria popular durante três dias”, evidenciando que a Nazaré é uma terra de contrastes – de abundância ou de fome, de cores garridas ou do negro cerrado do luto, da tristeza ou do excesso que caracteriza o tempo de Carnaval.


Saiba mais sobre o Carnaval nazareno em A Biblioteca sugere.

Inverno

Eurico de Castro e Silva
O Inverno, s.d.
Barro
Alt. 34,6 cm
MDJM inv. 11 esc.




Figura de carácter enigmático, bem conhecida na Nazaré, embora sejam escassos dados concretos sobre a sua biografia.
Supõe-se que o seu nome próprio seria José Janardo. Como possível proveniência são sugeridas várias regiões estremenhas ou ribatejanas, registando-se referências a Alenquer, Cartaxo, Santarém, Serro Ventoso, Vermelha (Cadaval).

Na Nazaré, muitos se lembram ainda do “Inverno” que, anualmente e durante cerca de quarenta anos, vinha regularmente a esta vila, trajando casaco largo e comprido, calças de cotim, chapéu enterrado na cabeça, botas cardadas e o seu inseparável chapéu de chuva. Chegava em Setembro, por altura das “Festas”. Magro, esquálido, de rosto encovado e melancólico, olhos escuros, fixos e perscrutadores, gastava os seus dias vagarosamente, em atitude introvertida e alheada, deambulando “p’ra norte e p’ra sul”, ou sentado nos antigos bancos outrora existentes na praça Sousa e Oliveira, abrigado pelo chapéu de chuva.
De uma maneira geral, a chegada desta figura típica coincidia com o início do mau tempo e das chuvas o que, aliado ao facto de nunca abandonar o velho chapéu de chuva, eram razões que fundamentavam a alcunha por que era identificada, sendo considerada um prenúncio do Inverno, como acontece popularmente com os amola-tesouras.

Foi representado por vários artistas, em escultura, desenho, pintura ou fotografia, existindo no acervo do Museu Dr. Joaquim Manso algumas dessas obras.

(informação recolhida através de pesquisa de campo e tradição oral)



Prece na Praia

Irene Natividade (1900-1995)
Prece na Praia, 1958
Desenho a lápis
MDJM inv. 23 Des.





Desenho representando o pormenor de uma mulher da Nazaré em atitude de prece. Testemunha a constante ansiedade vivida pelas mulheres desta vila de pescadores, onde o mar tanto dá trabalho e vida, como é fonte de dor e de morte. Perante a fúria dos temporais, quando os naufrágios se pressentiam, estes vultos embuçados nas suas capas negras permaneciam sentados na Praia, inabaláveis, ao frio e à chuva, olhando o mar, aguardando que ele lhes devolvesse a salvo o marido ou os filhos, orando para que a tragédia não passasse de uma sofrida ameaça.

Irene Natividade captou amiúde os momentos da vida nazarena, deixando uma obra vasta, que em parte ofereceu ao Museu Dr. Joaquim Manso, no momento da sua inauguração em 1976.

A artista nasceu no Porto, em 1900, mas desde cedo viveu em Alcobaça. Aqui, conheceu e casou com Joaquim Vieira Natividade, homem de vulto no domínio da Agronomia e da Silvicultura. Tal como o seu marido, Irene Natividade sempre manifestou interesse pela Artes e pelo Património, desenvolvendo um intenso convívio com escritores como Afonso Lopes Vieira e artistas como Alberto de Sousa e Sousa Lopes. A sua actividade artística estendeu-se pela pintura, a tapeçaria e, a partir de 1925, pela pintura em faiança. A temática da Nazaré não podia deixar de fazer parte do seu repertório, quer pela proximidade geográfica, quer pelas potencialidades estéticas desta comunidade costeira.