Seminho

Seminho
Cortiça
Doação de Álvaro Águeda, 1976
MDJM inv. 734 Etn.









Em Março, associado à comemoração do Dia Mundial da Floresta, o Museu Dr. Joaquim Manso evidencia a utilização de materiais oriundos da natureza na pesca tradicional, destacando o seminho.

Ao longo da costa portuguesa é muito utilizado este tipo de flutuador. Trata-se de uma bóia, constituída por cortiças enfiadas umas nas outras através de fio de sisal ou nylon, e que se destina a aliviar o peso dos cabos das redes, sobretudo da arte xávega, onde complementa esta arte a par dos odres e dos ferros.

De acordo com os vários regionalismos, é também denominado de semino ou smin.

Marcha de Carnaval 1978


Marcha de Carnaval de 1978 do “Salão Mar-Alto”
Letra de Américo Matias e João H. Pires
Música de Aníbal Freire
MDJM

Uma das valências do Carnaval nazareno assenta no aspecto musical. As “marchas” são disso exemplo e, por vezes, em tom jocoso, referem vários aspectos da vida social local.
A letra desta marcha evoca a celebração de S. Brás a 3 de Fevereiro que, na Nazaré, tem lugar no monte do mesmo nome e, independentemente de calendários, é um prenúncio do tempo de Carnaval que se aproxima.
A devoção popular inclui uma romaria onde aparecem os primeiros “ensaiados” (mascarados). Tempos houve em que, na pequena ermida, além do São Brás, se venerava Nossa Senhora das Candeias (celebrada a 2 de Fevereiro) e São Bartolomeu (outra designação nazarena para o mesmo monte, onde, segundo a lenda, Rodrigo - o último rei dos Visigodos - se refugiara depois de ter escondido a imagem de Nossa Senhora da Nazaré numa gruta no Sítio).
É uma obrigação subir ao monte, fazer as preces e oferendas na capela. Entre elas, há referências a uma telha, como pedido de casamento das raparigas solteiras ou, posteriormente, como simples contributo para o melhoramento do telhado do edifício.
Depois, no pinhal em redor do monte, é tempo de folia. Entre fogueiras, preparam-se as “sardinhas salgadas, chouriços e morcelas assadas”, sempre tudo muito bem acompanhado de bastante vinho.
Produtos característicos deste dia eram e continuam a ser “frutos secos”, pinhões, passas, tremoços, pevides e “passarolas” …
Esta vivência de folia é animada por cantigas e danças, onde não faltam os grupos “ensaiados”, com a sua irreverência e espontaneidade. Este “ritual” foi-se modernizando e acrescentando outros pormenores de diversão, como música “ao vivo” e apresentação dos “reis de Carnaval”.

Em exposição, a letra desta marcha é acompanhada por fotografias da colecção do Museu Dr. Joaquim Manso e fotografias cedidas por Nazaré Ova, que permitem ilustrar as festas de São Brás nos anos 1960 e na actualidade. As fotografias são comentadas através de entrevistas realizadas a Nazaré Ova e à sua filha, Polcínia Ova, rainha do Carnaval da Nazaré 2010.

Consulte o desdobrável sobre o Objecto do Mês aqui.

Rua da Nazaré, de Abílio

Abílio de Mattos e Silva (1908-1985)
Rua da Nazaré, 1943
Guache sobre papel
MDJM inv. 124 Pint.

Abílio Leal de Mattos e Silva nasceu no Sardoal em 1 de Abril de 1908. Concluídos os estudos liceais em Coimbra, iniciou o curso de Direito em Lisboa acabando, porém, por optar pela função pública.
Fixou-se na Nazaré em 1931, aqui permanecendo até 1936. Datam deste período as obras mais antigas; definem a fase em que a sua pintura começa a manifestar-se de forma mais assídua, ao que não será estranho o estimulante convívio com os pintores portugueses e estrangeiros que com ele partilhavam a forte sedução ambiental da vila.
A pintura “Rua da Nazaré” insere-se nesta temática. Abílio realizou inúmeros desenhos, guaches e óleos com motivos atentos às pessoas e vivências, mas frequentemente enquadrados no casario desta vila piscatória. Deixou também um exaustivo estudo sobre o Traje Tradicional da Nazaré, acompanhado por ilustrações pormenorizadas, que fazem parte do espólio do Museu Dr. Joaquim Manso


Nazaré terá sido o princípio, Óbidos, a continuação. Com efeito, a actividade de Abílio prolonga-se durante as férias no velho burgo, cuja paisagem desenha e pinta durante muitos anos, tendo-nos ficado dessa actividade uma vasta e significativa produção.

Em Lisboa, onde passa a residir em 1936, participa em exposições colectivas e colabora na revista "Presença" e noutras revistas e publicações oficiais. Como grafista, executa numerosos trabalhos para organismos de Estado.
Com a peça "Tá-Mar", de Alfredo Cortez, inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro declamado e ligeiro.
No Ministério da Economia desenvolve intensa actividade como ilustrador e designer, tendo sido condecorado pela acção desenvolvida em exposições organizadas no estrangeiro. É, cumulativamente, director de cena do Teatro S. Carlos, onde levou a efeito algumas das suas mais importantes realizações cénicas.

Obras Publicadas: "Óbidos, vila antiga de Portugal" (desenho), "O Trajo da Nazaré", "30 Anos de Teatro" (catálogo). Quando faleceu, tinha em preparação um álbum sobre Óbidos.

Cerco Republicano


Cerco Republicano
Galeão e duas barcas auxiliares (miniatura), 1980
Madeira
Fabricante: Policarpo Vicente Isaac
MDJM inv. 1091 Etn.

A miniatura reproduz a embarcação original N 672 G, cuja data de registo é 23 Setembro 1913. Era propriedade da “Sociedade Cerco Liberal” e destinava-se a serviço de pesca com “cerco americano”.

Tinha de comp. 10 m; boca 3,30 m; pontal 1,10 m e T.B. 8,712 t.
A embarcação original foi abatida em 1929.

No período que antecedeu o 5 de Outubro de 1910 e durante a I República, alguns barcos registados na Capitania do Porto da Nazaré revelam a ideologia republicana dos seus proprietários, de que é exemplo este galeão que pertencia ao “Cerco Liberal”, também conhecido por “Cerco Republicano” ou “Papa -Charutos”:
Duarte Pacheco – Batel das armações valencianas N 474 V, registado a 14 Maio 1906. Propriedade “Rosa e Comandita”. Em 21 Maio 1912, passou a pertencer a Cândido Rodrigues e C.ª (filhos).
Bernardino Machado – Barca de cerco americano N 503 G, registada a 21 Setembro 1908. Propriedade de “Sociedade de Cerco Americano Igualdade” – Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
Guerra Junqueiro – Barca de cerco americano N 504 G, registada a 21 Setembro 1908, ao serviço do Cerco Americano “Igualdade” – Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
António José d’Almeida – Barca de cerco americano N 513 G, registada a 15 Novembro 1908, o serviço do Cerco Americano de Álvaro, Ascenso, Vidinha e Comp.ª.
Pinheiro Chagas – Batel das armações valencianas N 696 V, registado a 18 Maio 1914. Propriedade “Parceria Fraternidade”.
República – Galeão de cerco americano N 711 G, registado a 17 Setembro 1914. Propriedade da Firma Santos Amaral e C.ª. Destina-se ao serviço de pesca com o cerco americano “Alexandre”.

No ano de 1910, registaram-se na Capitania do Porto da Nazaré: 19 barcos de Arte Xávega, 10 batéis de pesca da lagosta, 5 embarcações de cerco americano, 2 embarcações de Armação Valenciana e 1 embarcação de Armações Redondas.

Primeira Comissão Republicana da Nazaré, 1907

Álvaro Laborinho (1879-1970)
Grupo da Primeira Comissão Municipal Republicana da Nazaré, 1907
MDJM inv. 915 Fot.



Em momento de celebração do Centenário da Implantação da República, o Museu Dr. Joaquim Manso evoca esta época revolucionária na Nazaré.
Ainda durante a Monarquia, várias figuras da Nazaré aderiram ao crescente movimento republicano, desenvolvendo numerosas acções no sentido da divulgação dos novos ideais e da possível implantação da República.
Fizeram-se os primeiros comícios e conferências, trazendo à localidade alguns nomes que ainda perduram na memória colectiva, como Ramada Curto, conhecido advogado, Pires de Campos, Afonso Ferreira, Lopes Pelago e o general Estrela de Leiria.
Dos locais distinguiram-se, entre outros, António Gomes Ascenso, presidente da Comissão Republicana da Nazaré, José Pedro, Álvaro Laborinho, Joaquim Brilhante, Albertino Victorino Laranjo e Teixeira Freire.
A Comissão Administrativa em 1912 era composta por João Duarte Vieira, farmacêutico; Manuel Ferreira Canadas, comerciante; Joaquim Baptista Laranjo; comerciante; Fortunato da Silva Pimpão; comerciante; Armando Laborinho, comerciante e João de Sousa Júnior, também comerciante.

A primeira bandeira republicana na Nazaré regista-se em Dezembro de 1910, por iniciativa e oferta de Alfredo Santos, sócio da fábrica de conservas “Alfredo Santos & Bravo”. A cerimónia teve lugar na própria fábrica, onde foi içada a nova bandeira portuguesa, verde e rubra.

Após insistentes pedidos aos órgãos de governo competentes e que remontam ainda ao tempo da Monarquia, em 1912, por decreto de Manuel de Arriaga, o concelho da Pederneira passa a denominar-se “concelho da Nazaré”. Manuel de Arriaga (1840-1917) foi Presidente da República Portuguesa, entre 1911 a 1915, e também cultor da poesia e da literatura. Desde fins do século XIX, Manuel de Arriaga era amante da Nazaré, aqui passando férias e dedicando-lhe alguns belos poemas. A Nazaré, por sua vez, recorda Manuel de Arriaga na sua toponímia – Praça Manuel de Arriaga.

Com a República, esta vila piscatória conhece alguns melhoramentos sócio-culturais, nomeadamente na educação, no teatro e na organização de actividades ligadas à cultura. Celebram-se as festas do “Dia da Árvore” e o espírito republicano reflecte-se em vários aspectos do quotidiano piscatório, incluindo nos registos de embarcações, cujas denominações evidenciavam a matriz política dos seus proprietários. Citam-se como exemplo as embarcações “Bernardino Machado”, “Guerra Junqueiro” e “António José d’Almeida” (1908), “Cerco Republicano” (1913), “Pinheiro Chagas” e “República” (1914).

Álvaro Laborinho, fotógrafo amador da Nazaré, foi também um republicano convicto, indo propositadamente a Lisboa para oferecer os seus préstimos a António José de Almeida.
Foi um dos intervenientes na fundação do Centro Republicano Português na Nazaré, sendo bastante participativo em várias actividades políticas e na organização de comícios republicanos.
Com o seu olhar fotográfico, registou assiduamente algumas das figuras e momentos emblemáticos vividos na Nazaré durante a época de implantação da República, como a fotografia seleccionada.


Consulte o dossier República. No âmbito das comemorações do Centenário da República, o Museu Dr. Joaquim Manso seleccionou algumas notícias da imprensa nacional constante do seu Centro de Documentação, onde são referidos acontecimentos ocorridos na Nazaré.
Visite a exposição "A implantação da República e a Nazaré", no Centro Cultural da Nazaré, entre 5 de Outubro e 7 de Novembro. Ler mais.

Praia do Norte











Maria Lucília Moita (1928 -)
Praia do Norte, 1985
Óleo sobre platex
MDJM inv. 100 Pint.


O mar sempre motivou artistas e escritores. Uns remeteram-no para um plano de enquadramento ou cenário de composições variadas. Outros elevaram-no a tema principal das suas obras, numa análise mais ou menos intimista ou numa plena exploração das suas cores, luz e movimentos.


Maria Lucília Moita nasceu em Alcanena, mas reside desde 1954 em Abrantes. Aprendeu a pintar com o Mestre João Reis (1899-1982) e observando a colecção naturalista da casa do seu primo, o coleccionador Dr. Anastácio Gonçalves. No entanto, cedo ultrapassou o registo naturalista para enveredar por um percurso que culminaria nos anos 1980 numa capacidade expressiva mais pessoal, longe das referências iniciais.
O mar surge amiúde nas suas obras, em composições abstractas de tons claros, obtidas pelo uso de raspagem e sobreposição de tintas espessas.

“Praia do Norte” insere-se nesta tendência da autora, evocando a relação entre o movimento incessante das ondas do mar e o areal da Praia do Norte, extensa praia a Norte do Promontório da Nazaré.
Sendo a Praia da Nazaré frequentemente representada, sobretudo pelos seus aspectos etnográficos e piscatórios, a Praia do Norte não logrou o mesmo poder atractivo da classe artística, pelo que esta pintura ganha ainda maior significado para o património museológico.
Foi oferecida por Lucília Moita ao Museu Dr. Joaquim Manso nos primeiros anos da sua abertura, valorizando uma colecção de arte que testemunha a relação do homem com o mar – fonte de vida, de trabalho e de inspiração criadora.

Paneiro



Oferta de José Codinha dos Santos
MDJM inv. 655 Etn.

Tabuleiro rectangular, com fundo de rede delimitado por quatro ripas de madeira. Ao centro e na horizontal, uma outra trave de madeira reforça a estrutura e serve de apoio quando é transportado à cabeça pela mulher da Nazaré.
É utilizado para se colocar o peixe a secar ao sol, depois de amanhado.
Os vários paneiros colocados no areal da praia, lado a lado, e ligeiramente inclinados, formam um conjunto localmente designado por “estindarte”.


A seca de peixe ainda hoje se pratica pelas mulheres da Nazaré, embora o processo se tenha modernizado ao longo do tempo.
Outrora, a actividade de preparação do pescado decorria à beira-mar e utilizava-se a própria água do mar.
Primeiro, amanhava-se o peixe (retirava-se a tripa) numa gamela ou dorna com água do mar. Depois, escalava-se o peixe (abria-se ao meio), com os próprios dedos e procedia-se à sua lavagem também em água do mar, numa outra gamela ou dorna. Era, então, altura do pescado, já preparado, ficar em “moira” (salmoura), durante cerca de uma hora numa outra gamela ou dorna onde à água do mar se acrescentava mais sal. De seguida, era posto a secar no “estindarte” que, primitivamente, era constituído por camadas de junco sobre a areia e, posteriormente, por conjunto de paneiros colocados inclinados, lado a lado.
Mais recentemente, esta prática foi delimitada a uma área regulamentada pela Câmara Municipal e pela Capitania do Porto da Nazaré. Também os meios utilizados neste processo se foram ajustando ao quotidiano actual e as gamelas e dornas deram lugar às vulgares bacias; a água do mar foi substituída pela água potável a que, quando necessário, se acrescenta sal para a “moira” (salmoura). Neste preparado, o pescado permanece cerca de hora e meia (mais tempo do que a água do mar exigia).
Em tempo de sol, o peixe fica a secar durante dois dias. Mas pode ficar durante cerca de uma semana, quando não há sol.