Paneiro



Oferta de José Codinha dos Santos
MDJM inv. 655 Etn.

Tabuleiro rectangular, com fundo de rede delimitado por quatro ripas de madeira. Ao centro e na horizontal, uma outra trave de madeira reforça a estrutura e serve de apoio quando é transportado à cabeça pela mulher da Nazaré.
É utilizado para se colocar o peixe a secar ao sol, depois de amanhado.
Os vários paneiros colocados no areal da praia, lado a lado, e ligeiramente inclinados, formam um conjunto localmente designado por “estindarte”.


A seca de peixe ainda hoje se pratica pelas mulheres da Nazaré, embora o processo se tenha modernizado ao longo do tempo.
Outrora, a actividade de preparação do pescado decorria à beira-mar e utilizava-se a própria água do mar.
Primeiro, amanhava-se o peixe (retirava-se a tripa) numa gamela ou dorna com água do mar. Depois, escalava-se o peixe (abria-se ao meio), com os próprios dedos e procedia-se à sua lavagem também em água do mar, numa outra gamela ou dorna. Era, então, altura do pescado, já preparado, ficar em “moira” (salmoura), durante cerca de uma hora numa outra gamela ou dorna onde à água do mar se acrescentava mais sal. De seguida, era posto a secar no “estindarte” que, primitivamente, era constituído por camadas de junco sobre a areia e, posteriormente, por conjunto de paneiros colocados inclinados, lado a lado.
Mais recentemente, esta prática foi delimitada a uma área regulamentada pela Câmara Municipal e pela Capitania do Porto da Nazaré. Também os meios utilizados neste processo se foram ajustando ao quotidiano actual e as gamelas e dornas deram lugar às vulgares bacias; a água do mar foi substituída pela água potável a que, quando necessário, se acrescenta sal para a “moira” (salmoura). Neste preparado, o pescado permanece cerca de hora e meia (mais tempo do que a água do mar exigia).
Em tempo de sol, o peixe fica a secar durante dois dias. Mas pode ficar durante cerca de uma semana, quando não há sol.

Recanto da Nazaré

Mamia Roque Gameiro (1901-1996)
Recanto da Nazaré, 1925
Óleo sobre tela
MDJM inv. 68 Pint.





A pintura ilustra um recanto urbano da Nazaré, através do pincel da filha do célebre aguarelista Alfredo Roque Gameiro. Além do Promontório, observa-se o “paredão” e um conjunto arquitectónico típico, junto da Igreja de Santo António. Algumas figuras humanas completam o quadro, movimentando-se pela rua ou representando costumes tradicionais como o sentar-se nos “arrebates” (soleiras) da porta.
A particularidade destas pinturas de início do século XX reside no seu aspecto documental, escolhendo vivências ou contextos paisagísticos entretanto alterados. Mas, ao seu valor temático, alia-se o facto da Nazaré ter constituído motivo de atracção para uma vasta comunidade artística, que aqui pôde desenvolver os seus gostos e experimentar técnicas, umas de registo mais naturalista e ingénuo, outras mais críticas ou modernistas.

Mamia Roque Gameiro (Amadora, 1901 – Lisboa, 1996), de seu nome Maria Emília Roque Gameiro, nasceu na Amadora, numa família ligada à arte.
Filha do aguarelista Alfredo Roque Gameiro (Minde, 1864 - Lisboa, 1935), Mamia seguiu as pisadas do pai, tal como os restantes irmãos, embora cada um tenha definindo um percurso individual.
Estudou com a pintora Mily Possoz (1888-1967) e trabalhou a aguarela, guache e óleo. A Nazaré foi um dos seus temas, comprovando a importância desta vila piscatória como cenário de inspiração para os artistas portugueses e estrangeiros.
Em 1919, expôs na Sociedade Nacional de Belas-Artes e, em 1923, realizou a sua primeira exposição individual. Distinguiu-se também como ilustradora de livros infantis e de publicações periódicas.
É de realçar o seu trabalho como miniaturista, nomeadamente nas representações de histologia, no IPO, entre 1935 e 1940.
Casou com o pintor Jaime Martins Barata (1899-1970), em 1926.

Dia de São Pedro no rio Alcôa





Álvaro Laborinho (1879-1970)
Dia de São Pedro no rio Alcôa, 1928 (29 Junho)
MDJM inv. 1381 Fot.


Junho é tempo dos Santos Populares.

Na Nazaré, terra de festas e tradições, era hábito festejar os dias de São João e de São Pedro com passeios de barco na foz do rio Alcôa, fazendo-se piqueniques, fogueiras e marchas alusivas.

Esta fotografia de Álvaro Laborinho documenta-nos um desses momentos, num espaço actualmente ocupado pelo Porto de Abrigo da Nazaré.

Guião do Círio de Nossa Senhora da Vitória











Oferta de Lídio Maurício, Juiz em 1959
Guião realizado para o Círio de 1959, por Irene Maurício

(costureira, com quem Lídio Maurício viria a casar e que foi Juíza no mesmo ano)


Anualmente, na Quinta-Feira de Ascensão (este ano, a 13 de Maio), tem lugar o ancestral Círio de Nossa Senhora da Vitória, que parte do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré em direcção à pequena Capela de Nossa Senhora da Vitória, em Paredes.

Na Nazaré, a paisagem, a cultura do mar e as tradições religiosas fundem-se para gerar um palco único de dinamização turística. Através dos séculos, esta manifestação de fé vem mobilizando as gentes locais para uma experiência cumpridora de um rigoroso ritual, onde a devoção serve de pretexto para a festa e o convívio popular.

Única que parte da Nazaré, esta é uma caminhada colectiva, organizada de juiz em juiz, para prestar o reconhecimento pela protecção sagrada aos “homens do mar”. O colorido dos trajes, a imponência dos cavalos, o ritmo da música, a genuinidade das loas, os acampamentos, os bailes e almoços no areal, transformam o Círio de Nossa Senhora da Vitória num dos maiores e mais pitorescos espectáculos da cultura nazarena.


Objecto oferecido ao Museu Dr. Joaquim Manso na sequência da exposição "Da Nazaré à Vitória. Uma romagem de festa e devoação", realizada em Maio de 2009.

Costal







MDJM inv. 971 Etn.

Recipiente feito de verga entretecida, utilizado tradicionalmente pela mulher da Nazaré no transporte de pescado. Tem as iniciais “V.H.”, referentes ao nome da proprietária, Virgínia Hilário.

Integra-se na mostra “Nazaré no feminino”, iniciada em Março e que documenta algumas vivências e actividades da mulher nazarena ao longo dos tempos, através da fotografia e da literatura.

Algibeira


MDJM inv. 1852 Etn.

Acessório do traje feminino tradicional da Nazaré, localmente denominado “alzebêra” e confeccionado com retalhos de diferentes tipos de tecido (escocês, castorina, …).
Trata-se de uma bolsa que cinge à cintura da mulher por atilhos (um de cada lado). De corte arredondado, apresenta duas entradas na parte da frente e uma na posterior, que fecham com botão. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido contrastante. Em situações de luto, também a algibeira usada é de cores escuras ou totalmente preta.


A algibeira tem um carácter verdadeiramente funcional, sendo usada para trazer o dinheiro e outros haveres ou “papéis de valor”, muitas vezes acompanhados por um “breve”, amuleto ou relíquia que, segundo a superstição popular e a crença religiosa, era uma forma de protecção.
Ainda hoje é usada diariamente pela mulher da Nazaré, sobretudo, pelas mais idosas que envergam o traje tradicional, resguardada sob a “saia de cima”, sempre do lado direito, e fixada à “saia de baixo” por um alfinete de dama.

Veja mais sobre o projecto "Conversas de Algibeira", entre o Museu Dr. Joaquim Manso e a Universidade Sénior da Nazaré.




Grupo Carnavalesco

Álvaro Laborinho (1879-1970)
Grupo Carnavalesco, 1907
MDJM Inv. 861 Fot.






Na Nazaré, o mês de Fevereiro é indissociável do Carnaval.

Esta fotografia lembra esta “festa” vivida intensamente pela população da Nazaré. As máscaras e os disfarces são um dos meios utilizados para extravasar a euforia que anima o tempo carnavalesco. Todos podem ser o que quiserem!

Os primeiros sinais desta festa cíclica surgem durante as festividades em honra de Santo Amaro (Alfeizerão, 15 de Janeiro), onde já participam grupos de nazarenos “ensaiados” (mascarados).
No dia de S. Brás (3 de Fevereiro), em romaria ao Santo do mesmo nome, a população desloca-se ao Monte de S. Bartolomeu, também conhecido por Monte de S. Brás e, aí, acendem-se fogueiras, assam-se chouriços, organizam-se almoços, sobe-se à capelinha e, num espírito de folia, vive-se uma “festa” onde o profano prevalece sobre o sagrado.


No tempo seguinte, fazem-se os preparativos para festejar o “Santo Entrudo”: escrevem-se músicas, letras e “cegadas” cheias de ironia, humor e sentido crítico; escolhem-se fantasias e trajos; estudam-se coreografias; constroem-se carros alegóricos, enfeitam-se as salas de baile das várias associações recreativas e têm lugar os primeiros bailes de máscaras.

Chega o Carnaval. Foliões e ensaiados aglomeram-se nas ruas da Nazaré. Ao domingo, ruidosas bandas infernais a todos acordam; carros alegóricos, bandas, marchas, grupos e ranchos carnavalescos desfilam em cortejo pelas ruas da vila. Animam-se as gentes. Enchem-se as salas de baile, dança-se, canta-se, brinca-se. Quebram-se regras e normas. Invertem-se valores. Todos podem ser o que quiserem …
A meio da noite, é a vez das “cegadas” se exibirem nos bailes, ridicularizando, de forma mordaz, algumas situações socio-políticas da localidade.

Na tarde de Quarta-feira de Cinzas, por entre queixas, choradeiras e zombarias, faz-se, em simbólica cerimónia fúnebre, o “Enterro do Santo Entrudo”, que consiste no “incendiar” de um boneco no areal da praia ou, se esta iniciativa decorrer no Sítio, o “boneco em chamas” é atirado do Suberco.
É também neste dia que se assiste ao último baile, ouvem-se as “deixas”, que são críticas burlescas aos acontecimentos do Carnaval que termina.

E assim se vive o Carnaval nesta terra de pescadores. Ao longo do tempo, foram-se registando transformações e adaptações, algumas brincadeiras como as “caqueiradas” e o “talim-talão” foram sendo substituídos ou esquecidas; nas bandas infernais, as tampas, panelas e tachos deram lugar às tarolas e pandeiretas, …
No entanto, ontem como hoje, o Carnaval vive-se “animado, folião e de larga expansão de alegria popular durante três dias”, evidenciando que a Nazaré é uma terra de contrastes – de abundância ou de fome, de cores garridas ou do negro cerrado do luto, da tristeza ou do excesso que caracteriza o tempo de Carnaval.


Saiba mais sobre o Carnaval nazareno em A Biblioteca sugere.