Costal







MDJM inv. 971 Etn.

Recipiente feito de verga entretecida, utilizado tradicionalmente pela mulher da Nazaré no transporte de pescado. Tem as iniciais “V.H.”, referentes ao nome da proprietária, Virgínia Hilário.

Integra-se na mostra “Nazaré no feminino”, iniciada em Março e que documenta algumas vivências e actividades da mulher nazarena ao longo dos tempos, através da fotografia e da literatura.

Algibeira


MDJM inv. 1852 Etn.

Acessório do traje feminino tradicional da Nazaré, localmente denominado “alzebêra” e confeccionado com retalhos de diferentes tipos de tecido (escocês, castorina, …).
Trata-se de uma bolsa que cinge à cintura da mulher por atilhos (um de cada lado). De corte arredondado, apresenta duas entradas na parte da frente e uma na posterior, que fecham com botão. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido contrastante. Em situações de luto, também a algibeira usada é de cores escuras ou totalmente preta.


A algibeira tem um carácter verdadeiramente funcional, sendo usada para trazer o dinheiro e outros haveres ou “papéis de valor”, muitas vezes acompanhados por um “breve”, amuleto ou relíquia que, segundo a superstição popular e a crença religiosa, era uma forma de protecção.
Ainda hoje é usada diariamente pela mulher da Nazaré, sobretudo, pelas mais idosas que envergam o traje tradicional, resguardada sob a “saia de cima”, sempre do lado direito, e fixada à “saia de baixo” por um alfinete de dama.

Veja mais sobre o projecto "Conversas de Algibeira", entre o Museu Dr. Joaquim Manso e a Universidade Sénior da Nazaré.




Grupo Carnavalesco

Álvaro Laborinho (1879-1970)
Grupo Carnavalesco, 1907
MDJM Inv. 861 Fot.






Na Nazaré, o mês de Fevereiro é indissociável do Carnaval.

Esta fotografia lembra esta “festa” vivida intensamente pela população da Nazaré. As máscaras e os disfarces são um dos meios utilizados para extravasar a euforia que anima o tempo carnavalesco. Todos podem ser o que quiserem!

Os primeiros sinais desta festa cíclica surgem durante as festividades em honra de Santo Amaro (Alfeizerão, 15 de Janeiro), onde já participam grupos de nazarenos “ensaiados” (mascarados).
No dia de S. Brás (3 de Fevereiro), em romaria ao Santo do mesmo nome, a população desloca-se ao Monte de S. Bartolomeu, também conhecido por Monte de S. Brás e, aí, acendem-se fogueiras, assam-se chouriços, organizam-se almoços, sobe-se à capelinha e, num espírito de folia, vive-se uma “festa” onde o profano prevalece sobre o sagrado.


No tempo seguinte, fazem-se os preparativos para festejar o “Santo Entrudo”: escrevem-se músicas, letras e “cegadas” cheias de ironia, humor e sentido crítico; escolhem-se fantasias e trajos; estudam-se coreografias; constroem-se carros alegóricos, enfeitam-se as salas de baile das várias associações recreativas e têm lugar os primeiros bailes de máscaras.

Chega o Carnaval. Foliões e ensaiados aglomeram-se nas ruas da Nazaré. Ao domingo, ruidosas bandas infernais a todos acordam; carros alegóricos, bandas, marchas, grupos e ranchos carnavalescos desfilam em cortejo pelas ruas da vila. Animam-se as gentes. Enchem-se as salas de baile, dança-se, canta-se, brinca-se. Quebram-se regras e normas. Invertem-se valores. Todos podem ser o que quiserem …
A meio da noite, é a vez das “cegadas” se exibirem nos bailes, ridicularizando, de forma mordaz, algumas situações socio-políticas da localidade.

Na tarde de Quarta-feira de Cinzas, por entre queixas, choradeiras e zombarias, faz-se, em simbólica cerimónia fúnebre, o “Enterro do Santo Entrudo”, que consiste no “incendiar” de um boneco no areal da praia ou, se esta iniciativa decorrer no Sítio, o “boneco em chamas” é atirado do Suberco.
É também neste dia que se assiste ao último baile, ouvem-se as “deixas”, que são críticas burlescas aos acontecimentos do Carnaval que termina.

E assim se vive o Carnaval nesta terra de pescadores. Ao longo do tempo, foram-se registando transformações e adaptações, algumas brincadeiras como as “caqueiradas” e o “talim-talão” foram sendo substituídos ou esquecidas; nas bandas infernais, as tampas, panelas e tachos deram lugar às tarolas e pandeiretas, …
No entanto, ontem como hoje, o Carnaval vive-se “animado, folião e de larga expansão de alegria popular durante três dias”, evidenciando que a Nazaré é uma terra de contrastes – de abundância ou de fome, de cores garridas ou do negro cerrado do luto, da tristeza ou do excesso que caracteriza o tempo de Carnaval.


Saiba mais sobre o Carnaval nazareno em A Biblioteca sugere.

Inverno

Eurico de Castro e Silva
O Inverno, s.d.
Barro
Alt. 34,6 cm
MDJM inv. 11 esc.




Figura de carácter enigmático, bem conhecida na Nazaré, embora sejam escassos dados concretos sobre a sua biografia.
Supõe-se que o seu nome próprio seria José Janardo. Como possível proveniência são sugeridas várias regiões estremenhas ou ribatejanas, registando-se referências a Alenquer, Cartaxo, Santarém, Serro Ventoso, Vermelha (Cadaval).

Na Nazaré, muitos se lembram ainda do “Inverno” que, anualmente e durante cerca de quarenta anos, vinha regularmente a esta vila, trajando casaco largo e comprido, calças de cotim, chapéu enterrado na cabeça, botas cardadas e o seu inseparável chapéu de chuva. Chegava em Setembro, por altura das “Festas”. Magro, esquálido, de rosto encovado e melancólico, olhos escuros, fixos e perscrutadores, gastava os seus dias vagarosamente, em atitude introvertida e alheada, deambulando “p’ra norte e p’ra sul”, ou sentado nos antigos bancos outrora existentes na praça Sousa e Oliveira, abrigado pelo chapéu de chuva.
De uma maneira geral, a chegada desta figura típica coincidia com o início do mau tempo e das chuvas o que, aliado ao facto de nunca abandonar o velho chapéu de chuva, eram razões que fundamentavam a alcunha por que era identificada, sendo considerada um prenúncio do Inverno, como acontece popularmente com os amola-tesouras.

Foi representado por vários artistas, em escultura, desenho, pintura ou fotografia, existindo no acervo do Museu Dr. Joaquim Manso algumas dessas obras.

(informação recolhida através de pesquisa de campo e tradição oral)



Prece na Praia

Irene Natividade (1900-1995)
Prece na Praia, 1958
Desenho a lápis
MDJM inv. 23 Des.





Desenho representando o pormenor de uma mulher da Nazaré em atitude de prece. Testemunha a constante ansiedade vivida pelas mulheres desta vila de pescadores, onde o mar tanto dá trabalho e vida, como é fonte de dor e de morte. Perante a fúria dos temporais, quando os naufrágios se pressentiam, estes vultos embuçados nas suas capas negras permaneciam sentados na Praia, inabaláveis, ao frio e à chuva, olhando o mar, aguardando que ele lhes devolvesse a salvo o marido ou os filhos, orando para que a tragédia não passasse de uma sofrida ameaça.

Irene Natividade captou amiúde os momentos da vida nazarena, deixando uma obra vasta, que em parte ofereceu ao Museu Dr. Joaquim Manso, no momento da sua inauguração em 1976.

A artista nasceu no Porto, em 1900, mas desde cedo viveu em Alcobaça. Aqui, conheceu e casou com Joaquim Vieira Natividade, homem de vulto no domínio da Agronomia e da Silvicultura. Tal como o seu marido, Irene Natividade sempre manifestou interesse pela Artes e pelo Património, desenvolvendo um intenso convívio com escritores como Afonso Lopes Vieira e artistas como Alberto de Sousa e Sousa Lopes. A sua actividade artística estendeu-se pela pintura, a tapeçaria e, a partir de 1925, pela pintura em faiança. A temática da Nazaré não podia deixar de fazer parte do seu repertório, quer pela proximidade geográfica, quer pelas potencialidades estéticas desta comunidade costeira.

Cabeça de pescador

Irene Natividade (1900-1995)
Cabeça de pescador, 1957
Desenho a lápis
MDJM inv. 24 Des.




Depois de vários meses dedicados aos objectos da faina marítima, o Museu destaca em Novembro as próprias gentes, na individualidade dos seus rostos.
Este desenho representa o pormenor de uma cabeça de pescador da Nazaré, envergando o seu barrete característico. Trata-se possivelmente de um simples apontamento captado a partir do natural ou de um estudo para obra posterior a aguarela ou óleo.

Irene Natividade captou amiúde os momentos da vida nazarena, deixando uma obra vasta, que em parte ofereceu ao Museu Dr. Joaquim Manso, no momento da sua inauguração em 1976.
A artista nasceu no Porto, em 28 de Novembro de 1900, mas desde cedo viveu em Alcobaça. Aqui, conheceu e casou com Joaquim Vieira Natividade, homem de vulto no domínio da Agronomia e da Silvicultura. Tal como o seu marido, Irene Natividade sempre manifestou interesse pela Artes e pelo Património, desenvolvendo um intenso convívio com escritores como Afonso Lopes Vieira e artistas como Alberto de Sousa e Sousa Lopes. A sua actividade artística estendeu-se pela pintura, a tapeçaria e, a partir de 1925, pela pintura em faiança. A temática da Nazaré não podia deixar de fazer parte do seu repertório, quer pela proximidade geográfica, quer pelas potencialidades estéticas desta comunidade costeira.

De facto, este pequeno desenho testemunha a atenção que a Nazaré despertou entre o meio artístico nacional, e mesmo internacional, em meados do século XX.
Nos anos 1950, no início da discussão sobre a necessidade de um museu para a Nazaré, os seus mentores chegaram a propor a construção de um edifício que contemplasse uma residência para os inúmeros artistas que visitavam e permaneciam na vila piscatória, inspirados pelas suas vivências singulares e pitorescas.
Desde as pinturas de grupo, com cenas coloridas do quotidiano na Praia, até pequenos desenhos a lápis, em que o traço e a mancha negra centram a atenção na expressão do rosto dos indivíduos, Irene Natividade foi um desses criadores, que em muito enriquecem a colecção de arte deste Museu.

Sueste

Sueste
Oleado
Oferta de Isaura Milhazes
MDJM inv. 253 Etn.





Chapéu usado pelos bacalhoeiros nas longas campanhas que decorriam entre Março e Outubro. Era feito de pano-cru embebido em óleo de linhaça, o que lhe conferia alguma impermeabilização.

Para a nova campanha, o areal da praia da Nazaré “vestia-se” de roupa dos bacalhoeiros que aí era preparada pelos próprios pescadores. As peças de vestuário, confeccionadas em pano-cru por costureiras, eram embebidas em óleo de linhaça com uma trincha. Depois, ficavam penduradas, ao sol, em estruturas formadas por recoveiras e varolas fixadas na própria areia.
Os bacalhoeiros do Sítio ocupavam um espaço denominado “os eucaliptos da D. Riquêta” (Henriqueta), actualmente “Rua da Serração”.
O mesmo processo era usado nas velas dos dóris, confeccionadas pelos próprios pescadores. O longo tempo necessário à secagem deste vestuário deu origem à expressão típica desta localidade “Seca fatos de oleado”, que se utiliza quando se quer indicar que determinada pessoa é muito “maçadora.”

No fim da campanha, em Outubro, a vila da Nazaré enchia-se de alegria com o regresso dos seus familiares e organizavam-se festas e celebrações que lhe eram dedicadas: procissões, bailes (5 de Outubro), touradas, …

Nos tempos mais recentes, os fatos de oleado passaram a ser confeccionados com tecido sintético, abandonando a técnica tradicional e a utilização do óleo de linhaça.